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Jó 17

Thomas Aquinas

Jó 17:1

Jó havia mostrado acima o grande número de suas aflições, (16:14) a humilhação de sua mente, (16:16) a inocência (16:18) e a brevidade de uma vida definitivamente perdida, (16:23) e pela qual a verborragia de seus amigos é provada conclusivamente. Neste capítulo ele pretende provar as premissas e finalmente concluir sua ignorância. (v.10) Primeiro ele começa a provar o que havia dito sobre o processo da vida humana, e apresenta de antemão a causa da brevidade da vida, quando diz: “Meu espírito ficará enfraquecido”. Pois a vida do corpo é vivida através de espíritos vitais que se difundem do coração para todos os seus membros. O corpo vive enquanto eles são fortes no corpo. Mas quando o poder calórico natural (energia) começa a enfraquecer no coração, esses espíritos crescem menos. Por esta diminuição e debilitação ele, é claro, quer dizer o enfraquecimento do espírito. Ele então declara o efeito desta causa dizendo: “meus dias serão encurtados”. Pois a fraqueza do espírito vital encurta os dias da vida. Para responder à objeção de que um espírito, uma vez enfraquecido, seria novamente fortalecido de acordo com o tipo de existência desta vida mortal, ele diz: “nada resta para mim além do túmulo”, como se dissesse: Uma vez terminado o período desta vida presente, nada desta vida presente resta para mim, exceto a sepultura e aquelas coisas que convêm à sepultura. - Comentário sobre Jó

Jó 17:2

Então ele mostra de outra forma que o seu consolo é vão. Pois o consolavam dizendo que o pecado era a causa de tais adversidades vindo sobre ele, e que se ele se arrependesse voltaria à prosperidade. Mas ele rejeita isso dizendo: "Não pequei", porque não tinha remorso de consciência sobre nenhum pecado grave pelo qual tivesse incorrido em tais adversidades grandes, assim ele até diz depois no texto, "Porque meu coração não me acusou em toda minha vida." (27:6) Assim isso não é contra o que é dito em 1 João: "Se dissermos que não temos pecado, mentimos a nós mesmos." (1 Jo 1:8) Por isso ele explica o que havia dito acima sobre sua inocência, "Sofri essas coisas sem ter maldade em minha mão." (16:18) Ele então diz: "e meu olho repousa sobre coisas amargas." Ele usa o plural, "coisas amargas" por causa das muitas adversidades que ele havia enumerado acima. Ele diz "repousa" porque, embora tenha se humilhado entre coisas amargas e colocado saco sobre sua pele, (16:16), as coisas amargas não obstante permanecem. Ele atribui coisas amargas ao olho por causa do choro que causam, que ele já havia expressado dizendo, "Meu rosto estava inchado de choro," (16:17) e novamente, "meu olho derrama choro por Deus," (16:21) porque seu olho chorava entre as coisas amargas de modo que visava apenas à ajuda divina. — Comentário a Jó

Jó 17:3

Pois Jó compreendeu que somente ele podia libertar aquele que o tinha colocado no poder do maligno. (16:12) Verdadeiramente ele não estava orando para ser libertado da adversidade como aqueles que procurariam a prosperidade terrena após a adversidade, mas ele orou para ser levado à magnanimidade, e assim ele então diz, 'e coloca-me perto de ti.' Pois como Deus é a própria essência do bem, é necessário que aquele que é colocado próximo a Deus, seja libertado do mal. O homem é colocado próximo a Deus na medida em que se aproxima dele com sua mente através do conhecimento e do amor, mas isto acontece imperfeitamente no estado de um peregrino na terra em que o homem sofre ataques. Porque é colocado próximo a Deus, porém, ele não será vencido por eles. O homem é perfeitamente colocado próximo a Deus em sua mente no estado de felicidade última em que não pode sofrer ataques, e ele mostra que deseja isto dizendo, 'não deixes a mão de ninguém lutar contra mim,' porque não importa quanto alguém queira me atacar, se eu fosse colocado perfeitamente perto de ti, nenhum ataque de ninguém me perturbará. Esta é então a expectativa que Jó tinha para sua consolação em meio às coisas amargas, esperando ser colocado próximo a Deus onde não poderia temer ataques. — Comentário sobre Jó

Jó 17:4

Os amigos palradores de Jó não entendiam esta consolação espiritual de Jó, e por isso ele então diz: "Afastastes seus corações do aprendizado", do vosso ensino espiritual por meio do qual ensinais alguém a esperar por bens espirituais e a considerar bens temporais com desprezo. Já que apenas colocam sua esperança em coisas fracas e limitadas no tempo, não podem chegar à altura espiritual e ser colocados perto de Deus. Ele portanto exprime isto dizendo: "todavia não serão exaltados." — Comentário sobre Jó

Jó 17:5

Do fato de terem sido colocados longe do ensino espiritual, ele conclui que Elifaz promete apenas bens temporais a Jó como consolação (5:18) e ele expressa isto dizendo: “Ele promete pilhagem aos seus companheiros”, isto é, a aquisição de bens temporais que só podem chegar a uma pessoa se outra perder. Assim, a aquisição de bens temporais é comparada à pilhagem. Não é universalmente verdade que depois do arrependimento os homens recuperem a prosperidade temporal, uma vez que mesmo os bons nem sempre desfrutam da prosperidade temporal, e então ele diz: “os olhos de seus filhos falharão”. Ele chama de filhos aqueles que acreditam em sua promessa, esperam recompensas temporais pelos bens que praticam, mas quando não os alcançam, seus olhos desfalecem, como aqueles que cessam a esperança. - Comentário sobre Jó

Jó 17:6

Assim como Elifaz prometeu bens temporais aos que praticam o bem, ele também afirmou que todas as adversidades temporais surgem por causa dos pecados de quem as sofre. Visto que Jó sofreu muitas adversidades, Elifaz o usa como exemplo para o povo, e ao expressar isso dizendo: “Ele me usou como provérbio para o povo e como exemplo no meio deles”. Isso porque para comprovar sua opinião sobre a causa das adversidades ele usou como exemplo Jó, presumindo que ele foi punido pelo pecado. - Comentário sobre Jó

Jó 17:7

Porém, é característica do zelo dos justos indignarem-se quando veem a retidão dos julgamentos divinos pervertida por falsa doutrina. Então Jó consequentemente mostra a grandeza de seu zelo de duas formas: primeiro, por uma espécie de perturbação da mente. "A ira viciosa cega o olho, mas a ira zelosa perturba o olho", como Gregório diz. Assim ele diz: "Minha visão", a percepção de minha razão, cuja concentração é perturbada pela ira zelosa, "nublou-se em indignação." Segundo, a ira zelosa também produz agitação no corpo através da angústia. Assim o texto dos Macabeus diz que Matatias vendo os judeus sacrificarem aos ídolos, "sentiu angústia e tremeu violentamente na profundidade de suas paixões." (1 Mc. 2:23-24) Assim ele acrescenta aqui: "Meus membros se reduzem a quase nada" tanto a mente do homem parece se consumir pela angústia. — Comentário sobre Jó

Jó 17:8

Alguém poderia pensar que esse obscurecimento da visão é contrário à justiça e essa ira contra a inocência. Então, para rejeitar isto, ele então diz, 'os justos ficarão assombrados com isto,' como se dissesse: Os justos estão justamente assombrados quando veem a doutrina de homens maus, e acima ele chamou esse assombro de obscurecimento. O texto continua 'e o inocente se levantará contra o hipócrita,' dizendo efetivamente: Não é contrário à inocência se alguém se levanta em ira contra o hipócrita que perverte a verdadeira doutrina por um zelo pela justiça. — Comentário sobre Jó

Jó 17:9

Como foi dito, a ira zelosa perturba a alma mas não a cega, assim o homem justo é assombrado ou embaçado pelo zelo que não se retira da justiça. Ele expressa isto dizendo, "o justo preservará seu curso," porque não o abandona pela ira zelosa. Tal ira não antecede a razão mas a segue, e assim não pode separar um homem da justiça. A ira zelosa é útil porque faz um homem se levantar contra os males com maior força de alma. Ele expressa isto dizendo, "e acrescenta coragem às mãos puras," incitada pelo zelo, e assim Aristóteles diz na Ética III que a ira auxilia a coragem. — Comentário sobre Jó

Jó 17:10

Depois de Jó apresentar os argumentos pelos quais refutou a opinião de Elifaz, ele reúne aqui o que ele disse e ordena que demonstre sua tese. Primeiro, ele chama a atenção deles dizendo: “Portanto”, visto que o que eu disse é verdade, “todos vocês”, vocês e seus pais, que se uniram contra mim, “convertam-se” de seus erros, “e venham” a considerar a verdade. Depois de verificar a verdade, ficará claro para você o quão longe você está da verdadeira sabedoria. Portanto ele diz: “e não encontrarei um só homem sábio entre vocês”. Ele diz isso para conter o orgulho de Elifaz acima, quando disse: "o que você sabe que nós não sabemos?" (15:9 e segs.) e "Os homens sábios sabem o que aprenderam com seu pai." (15:18 e segs.) - Comentário sobre Jó

Jó 17:11

Nisto ele realmente intencionava mostrar sua estupidez quando prometeiam a ele a consolação da prosperidade temporal. (5:15, 8:6, 11:17) Ele primeiro propõe contra suas promessas que o tempo de sua vida já em grande parte se passou, e portanto ele diz: "Meus dias passaram." Depois ele mostra os males que sofre quando continua: "Meus pensamentos foram completamente dispersos," pois eles são impedidos da contemplação tranquila da sabedoria por causa da amargura de minha dor corporal. Assim ele então diz: "Eles torturam meu coração," porque seus pensamentos são desviados da doce contemplação da verdade para a amargura que torturou seu coração. — Comentário sobre Jó

Jó 17:12

Esta tortura do coração não foi nem interrompida pela noite que é o tempo reservado para o descanso do homem, e assim ele então diz, "Converteram a noite em dia," por causa da reflexão previamente mencionada ele passou a noite em insônia como se fosse dia. É mais doloroso sofrer a perda do sono durante a noite do que durante o dia, porque durante o dia a alma do homem é aliviada pela companhia dos homens e pela vista da luz do dia. Assim enquanto a noite fosse sem sono para ele, ele desejava que terminasse rapidamente. Ele explica isto dizendo, "Novamente espero pela luz depois da escuridão," isto é, espero que a luz do dia venha novamente depois da escuridão da noite. — Comentário sobre Jó

Jó 17:13

Mas uma vez que Elifaz o havia convidado a tolerar todas as suas adversidades pacientemente pela expectativa futura, ele mostra como consequência o que parece lhe restar no futuro no tocante às coisas temporais. Então ele diz, "Se sou paciente," isto é, suporto pacientemente todas estas dores, nada me resta senão a morada da cova, e ele expressa isto dizendo, "minha casa está nas regiões inferiores." Ele chama a cova as regiões inferiores de acordo com a opinião daqueles contra os quais disputa, que não acreditavam que a alma do homem sobrevive após a morte mas que apenas o corpo permanece na cova, que chamavam regiões inferiores porque estava situada nas profundezas da terra (inferno). O homem deitado na cova sofre escuridão tanto por causa da falta de sensação quanto também por causa da falta de luz exterior, e assim então ele diz, "Na escuridão preparei meu leito". — Comentário sobre Jó

Jó 17:14

Como um homem que tira sua origem quando nasce de seus pais pela razão do qual estabelece uma afinidade com eles, assim após a morte, deitado na sepultura ele é dissolvido em corrupção e vermes que são nascidos de seu corpo, e assim então diz: "Disse à corrupção: Tu és meu pai; e aos vermes: Vós sois minha mãe e minha irmã", como se dissesse: Somente me restará uma afinidade na sepultura com nenhuma outra coisa temporal exceto corrupção e vermes. — Comentário a Jó

Jó 17:15

A partir dessas coisas ele conclui como se deduzisse uma conclusão inadequada, dizendo: "Onde está então minha esperança?" como se dissesse: Se eu encontrasse meu consolo por causa da expectativa de prosperidade temporal, minha esperança seria vã. Novamente ele conclui com uma conclusão absurda ainda maior dizendo: “e quem aprecia o meu sofrimento?”, como se dissesse: Mesmo que eu aguente pacientemente, nada resta além da sepultura e sua escuridão, corrupção e vermes. Se então eu tivesse paciência para merecer bens temporais de Deus, seguir-se-ia que Deus não considerou minha paciência, o que equivale a negar a providência. - Comentário sobre Jó

Jó 17:16

Contra a objeção de que talvez ele receberia prosperidade temporal de Deus, mesmo na sepultura, ele então diz quase zombeteiramente: "Todas as minhas posses descerão às últimas profundezas do inferno", uma vez que tudo o que é meu será baixado à sepultura, que é tudo o que resta para mim. “Você acha que pelo menos lá terei descanso”, ou seja, devo também esperar prosperidade terrena mesmo lá? Isto é claramente ridículo. - Comentário sobre Jó