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João 12

Thomas Aquinas

João 12:1

Até agora o Evangelista tem demonstrado o poder da divindade de Cristo através do que fez e ensinou durante a sua vida pública. Agora ele começa a mostrar o poder de sua divindade manifestado em sua paixão e morte. Primeiro, ele trata da paixão e morte de Cristo; em segundo lugar, da sua ressurreição (c 20). A primeira está dividida em três partes: na primeira expõe o que causou ou ocasionou a paixão e morte de Cristo; no segundo, como Cristo preparou seus discípulos, já que sua morte envolveu sua separação física deles (c 13); na terceira, ele descreve sua paixão e morte (c 18). Ora, houve duas coisas que causaram ou ocasionaram a paixão de Cristo: a glória de Cristo, que despertou a inveja dos judeus, e a descrença deles, que os cegou. Então, primeiro ele trata da glória que Cristo recebeu; em segundo lugar, da incredulidade dos judeus (v 37). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, mostra como Cristo recebeu glória de outras pessoas; segundo, como ele recebeu glória de Deus (v. 27). Quanto ao primeiro ele faz três coisas: primeiro, mostra como Cristo recebeu glória de seus amigos íntimos; em segundo lugar, da multidão do povo judeu (v 9); em terceiro lugar, dos gentios (v 20). Quanto ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, ele mostra a glória que Cristo recebeu ao ser ministrado por seus amigos; em segundo lugar, como isso despertou a indignação daquele que o trairia (v 4). Em relação ao primeiro ele faz três coisas: primeiro, descreve o tempo; em segundo lugar, o lugar (v 1); e em terceiro lugar, a bondade demonstrada para com Cristo (v 2). Ele diz primeiro o que já dissemos: que antes da Páscoa Cristo foi para uma região próxima ao deserto, e como a festa se aproximava, os judeus começaram a procurá-lo. Assim, quando se aproximava o tempo pascal, durante o qual o cordeiro simbólico era imolado, Ele, como verdadeiro cordeiro, chegava ao lugar onde sofreria e por sua própria vontade seria imolado para a salvação do mundo: «Foi oferecido porque foi da sua vontade», como lemos em Isaías (53, 7). O Evangelista diz que Cristo veio lá seis dias antes da Páscoa, para nos informar que por dia da Páscoa ele não se referia ao décimo quarto dia do primeiro mês (quando, de acordo com o capítulo doze do Êxodo, o cordeiro pascal era morto à noite), mas ao décimo quinto dia. Todo este dia foi festivo e naquele ano caiu na sexta-feira em que nosso Senhor sofreu. Assim, o sexto dia antes da Páscoa era o primeiro dia da semana, ou seja, o Domingo de Ramos em que nosso Senhor entrou em Jerusalém. Conseqüentemente, Cristo veio a Betânia no dia anterior, isto é, no sábado. Isto é o que ele quer dizer com a frase seis dias antes da Páscoa. Este número é muito apropriado ao mistério a ser encenado. Em primeiro lugar, por causa do próprio número, seis é um número perfeito. Pois Deus completou as obras da criação em seis dias. Por isso era oportuno que fossem necessários seis dias para realizar a obra da paixão, que restauraria todas as coisas: «reconciliar todas as coisas, tanto na terra como no céu, estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz» (Cl 1,20); “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Cor 5,19). Em segundo lugar, é adequado ao mistério, considerando o seu prenúncio. Pois Êxodo (v 12) ordenou que no décimo dia do primeiro mês cada homem deveria pegar um cordeiro para sua casa e guardá-lo para o sacrifício. Assim, foi também no décimo dia do primeiro mês, ou seja, no sexto dia antes do décimo quinto dia, que nosso Senhor decidiu entrar em Jerusalém, aproximando-se do local onde seria sacrificado. Isto fica claro a partir do que se segue: “No dia seguinte, uma grande multidão que tinha vindo à festa ouviu dizer que Jesus vinha a Jerusalém. Então pegaram ramos de palmeiras e saíram ao seu encontro” (12,12). Depois, quando ele diz que Jesus veio a Betânia, o lugar é mencionado. Betânia era uma vila perto de Jerusalém e significa “casa da obediência”. Isso também é apropriado ao mistério. Primeiro, no que diz respeito ao motivo da paixão: “Ele se tornou obediente até a morte” (Fl 2,8). Em segundo lugar, no que diz respeito ao fruto da paixão, que só é obtido por quem obedece a Cristo: «Ele se tornou fonte de salvação eterna para todos os que lhe obedecem» (Hb 5, 9). É significativo que ele tenha acrescentado, onde estava Lázaro, a quem Jesus ressuscitou dos mortos, porque na casa da obediência aqueles que estão espiritualmente mortos são ressuscitados ao serem restaurados ao caminho da justiça: “Pela obediência de um só homem, muitos serão feitos justos” (Rm 5,19). No sentido literal, porém, isto foi escrito para mostrar que Cristo veio a Betânia para reavivar a memória da ressurreição de Lázaro: "Ele fez com que fossem lembradas as suas maravilhas; o Senhor é clemente e misericordioso", como lemos no Salmo (11,4). - Comentário sobre João

João 12:2

Então quando ele diz: ali lhe prepararam uma ceia, menciona a bondade mostrada a Cristo por seus amigos: primeiro, por seus amigos em geral; em segundo lugar, em particular. Marta servia, etc. Era também apropriado para este mistério que lhe servissem uma ceia ali, em Betânia, porque o Senhor é espiritualmente refrescado na casa da obediência, já que nossa obediência lhe agrada, segundo: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouve minha voz e abre a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele e ele comigo" (Ap 3:20). Em seguida ele menciona as três pessoas que estavam presentes ou sentadas com Jesus: Marta, Lázaro e Maria. Marta significa os prelados que são designados para servir nas igrejas: "É assim que um deve nos considerar, como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (1 Co 4:1). Assim lemos que Marta servia: "Marta estava afanosa e inquieta com muito serviço" (Lc 10:40). Lázaro, que tinha sido ressuscitado para a vida, significa aqueles que foram trazidos do pecado ao estado de justiça por meio do ministério ou serviço dos prelados; e eles, juntamente com os outros justos, festejam espiritualmente com o Senhor. Assim ele diz: e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele: "Regozijam-se os justos e exultam diante de Deus, e deleitam-se com alegria" (Sl 67:4). Maria significa as contemplativas, pois lemos em Lucas (10:39): "Maria sentou-se aos pés do Senhor e ouvia sua palavra." — Comentário sobre João

João 12:3

Três coisas são mencionadas sobre a bondade de Maria: primeira, o ungüento que usou; segunda, a bondade que ofereceu; terceira, seu efeito. Quanto ao ungüento, três coisas são notadas. Primeiro, a quantidade, e era uma grande quantidade, uma libra de ungüento: "Se você tiver muitas posses, faça seu presente de acordo com elas" (Tb 4:8). Segundo, sua matéria, pois era feita de nardo: "Enquanto o rei estava em seu leito, meu nardo exalava seu perfume" (Ct 1:11). Recorde que o nardo é uma planta aromática preta e curta; e o ungüento que é feito de modo dela tem um perfume que tem o poder de dar força e conforto. Terceiro, sua composição é notada, pois o nardo é descrito como pisticus. Segundo Agostinho, a palavra pisticus é tomada do lugar donde o nardo se origina. Porém, é melhor interpretar esta palavra como significando "verdadeiro" ou "puro," isto é, como não adulterado: pois pistis em grego é o mesmo que nossa fides (fiel, honesto). Ele acrescenta que era custoso, porque era feito de nardo, que é usado em ungüentos dispendiosos, e talvez outros ingredientes caros fossem a ele acrescentados. Isto nos ensina que devemos oferecer a Deus aquelas coisas que consideramos mais preciosas: "Oferecer-te-ei holocaustos de animais gordos, com o fumo do sacrifício de carneiros" (Sl 66:15); "Maldito seja o enganador que tem um macho em seu rebanho e o vota, e ainda assim sacrifica ao Senhor o que é defeituoso" (Ml 1:14). Vê a humildade de Maria, pois se prostrou aos pés de Jesus e ungiu os pés de Jesus, segundo, "Adoremos a seu escabelo" (Sl 132:7). Segundo, vê sua devoção, pois enxugou seus pés com seus cabelos, deste modo fazendo uma oferenda de si mesma: "Apresentai vossos membros a Deus como instrumentos de justiça" (Rm 6:13). Ele menciona o efeito de seu ministério quando diz, e a casa se encheu da fragrância do ungüento. Isto nos diz da bondade deste ungüento, que encheu toda a casa: "Correr-vos-emos em pos de ti ao cheiro de teus perfumes" (Ct 1:3). A questão é levantada se esta mulher é a mesma mulher que ungiu nosso Senhor como mencionado em Lucas (7:37), Mateus (26:7) e Marcos (14:3). Aprendemos de Jerônimo e Crisóstomo que muitos pensam que a mulher pecadora mencionada por Lucas não é a irmã de Lázaro, Maria, que se diz em João ter ungido o Senhor. Orígenes acrescenta que em João ela também não é a mulher de que Mateus e Marcos falam, mas eles estavam falando de alguma outra mulher. Ele oferece três razões para esta opinião. A primeira é baseada no tempo: pois a mulher em João ungiu o Senhor seis dias antes da Páscoa, enquanto a mulher mencionada por Mateus e Marcos o fez em algum momento durante os dois dias antes da Páscoa. Pois Mateus introduz seu relato afirmando que o Senhor disse: "Vós sabeis que daqui a dois dias é a Páscoa" (Mt 26:2); e em Marcos lemos: "Ora, faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos" (Mc 14:1). A segunda razão é baseada no lugar: pois em Mateus e Marcos a mulher é dita ter ungido o Senhor na casa de Simão o leproso, mas em João ela parece estar na casa de Marta, pois lemos que Marta estava servindo os convidados. E Agostinho concorda com isto. A terceira razão é da ação em si: pois a mulher em Mateus e Marcos ungiu a cabeça de nosso Senhor, enquanto a em João ungiu seus pés. Por outro lado, Agostinho e Gregório afirmam que os quatro Evangelistas estão falando de uma e a mesma mulher, mas que ela ungiu nosso Senhor duas vezes. A primeira vez, mencionada por Lucas, foi no início de sua conversão, em algum momento durante o meio da vida pública de Cristo. A segunda vez, mencionada pelos outros três Evangelistas, foi poucos dias antes da paixão de Cristo. Assim o mesmo ato é mencionado aqui em João e em Mateus e Marcos. Quanto à discrepância no tempo, Agostinho diz que João preservou a ordem histórica, enquanto Mateus e Marcos meramente se lembraram de que ocorreu pouco antes da traição de Judas, que se acreditava ter sido ocasionada por este evento. Quanto ao argumento baseado na diferença de lugar, não há razão pela qual a casa de Simão o leproso não pudesse ser a casa de Maria e Marta, uma vez que Simão poderia ter sido o chefe da casa. Ele é chamado de leproso porque em uma ocasião foi um leproso, mas foi curado por Cristo. Quanto ao ato em si, Agostinho diz que a mulher ungiu tanto a cabeça quanto os pés de Jesus. Se a objeção for levantada de que segundo Marcos ela quebrou o vaso de alabastro e derramou o ungüento na cabeça de Jesus, pode-se responder isto de duas maneiras. Primeiro, que foi quebrado de tal forma que algo permanecesse para ungir seus pés; segundo, ela poderia ter ungido primeiro seus pés, e então, quebrando o vaso, derramado o resto em sua cabeça. Misticamente, a libra que Maria usou denota a obra da justiça, pois pertence à justiça pesar as coisas e dar libra por libra: "Seu peso será igual" (Ez 45:11). Agora quatro outras virtudes devem ser acrescentadas se a obra da justiça for perfeita. Primeiro, compaixão: e assim ele diz, ungüento, que, porque é calmante, representa misericórdia: "Porque haverá julgamento sem misericórdia para quem não usou de misericórdia" (Tg 2:12). Segundo, humildade é necessária: assim ele diz, nardo, que, uma vez que é uma erva pequena, significa humildade: "Quanto maior você é, mais você deve se humilhar" (Eclo 3:18). Terceiro, fé é necessária: assim ele diz, puro (pisticus), isto é crente (fidelis): "O justo viverá pela sua fé" (Hc 2:4). Quarto, caridade deve estar presente: assim ele diz, custoso, pois somente caridade paga o preço pela vida eterna: "Se eu distribuir todos os meus bens, e se até entregar o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, de nada me vale" (1 Co 13:3). As obras da justiça ungem tanto os pés quanto a cabeça de Jesus. Pelos seus pés entendemos o mistério de sua humanidade; e pela sua cabeça, sua divindade, segundo: "A cabeça de Cristo é Deus" (1 Co 11:3). Assim aquele que venera a divindade e humanidade de Cristo é dito ungir sua cabeça e pés. Ou, podemos tomar a cabeça como indicando a própria pessoa de Cristo, segundo: "E o fez cabeça sobre todas as coisas para a Igreja" (Ef 1:22). Então os pés são os fiéis de Cristo, dos quais lemos: "Enquanto o fizestes a um dos menores destes meus irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25:40); "Como é belo sobre os montes o pé do que anuncia e prega a paz" (Is 52:7). Assim, aquele que honra o próprio Cristo, unge a cabeça de Cristo; e aquele que serve seus fiéis unge os pés do nosso Senhor. Novamente, porque o cabelo é produzido pelo que é supérfluo no corpo, alguém enxuga os pés do Senhor com seus cabelos quando toma o que tem em excesso e alivia as necessidades de seu próximo: "Dai como esmola o que vos sobra" (Lc 11:41). Assim, Agostinho diz: "Se você tem um excedente de qualquer coisa, dê-o aos pobres e você enxugou os pés do Senhor." O fato de que a casa foi enchida da fragrância do ungüento significa que por causa das obras da justiça, a Igreja desfruta e é enchida de um bom nome: "Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo" (2 Co 2:15). — Comentário sobre João

João 12:4

A seguir, o Evangelista descreve a indignação do traidor com isso. Ele faz duas coisas a esse respeito: primeiro, mostra sua indignação; em segundo lugar, como foi restringido (v. 7). Em relação ao primeiro ele faz três coisas: primeiro, descreve o traidor; em segundo lugar, ele menciona o que disse; e em terceiro lugar, ele afirma que sua intenção era má (v 6). O traidor é retratado de três maneiras. Primeiro, a sua dignidade é dada quando ele diz, um dos seus discípulos. Isto nos ensina que ninguém deve se presumir, não importa a dignidade a que tenha sido criado: “Ele acusa os seus anjos de maldade” (Jó 4:18). Em segundo lugar, o seu nome, Judas Iscariotes. O nome “Judas” significa “professar”, para nos indicar que além de um modo de professar virtuoso – “O homem professa com os lábios e assim é salvo” (Rm 10,10) – existe um modo de professar que é culpável e mercenário – “Ele te professará”, isto é, professará os teus louvores, “quando lhe tiveres feito o bem” (Sl 49,18). Em terceiro lugar, é mencionado o seu crime, aquele que o trairia: «Até o meu amigo íntimo em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar» (Sl 41,10). - Comentário sobre João

João 12:5

Então ele fornece as palavras do traidor, das quais vemos que ele havia morrido espiritualmente pelo aroma da unção, segundo: "Porque somos o aroma de Cristo, para uns aroma de morte para morte, para outros aroma de vida para vida" (2 Co 2:15). Judas estava descontente porque a unção não foi vendida mas derramada como ato de homenagem a Cristo. Assim Judas diz: Por que não foi este unguento vendido por trezentos denários? Mas como lemos em 2 Coríntios (11:14), os ministros de Satanás se disfarçam como anjos da justiça. Assim Judas encobriu seu mal sob o manto da piedade, dizendo, e dado aos pobres: "Seu coração fará a iniqüidade para praticar a hipocrisia e falar ao Senhor com engano" (Is 32:6). — Comentário sobre João

João 12:6

O Evangelista expõe a fraude quando acrescenta, Ele disse isto, não porque se importasse com os pobres mas porque era um ladrão. Pois ele não estava interessado em ajudar os pobres - 'Os corações dos ímpios são cruéis' (Pv 12:10) - mas porque era um ladrão, e acostumado a roubar, foi ferido porque o uso do ungüento lhe havia privado de uma oportunidade de roubar, e era esta avareza que levou à traição, pois lemos: 'Nada é mais ímpio do que o homem cobiçoso' (Sir 10:9); e 'O ladrão vem apenas para roubar e matar e destruir' (10:10). Ele teve a oportunidade de roubar pois tinha a caixa de dinheiro, isto é, ele era responsável pela bolsa de nosso Senhor, e ele costumava pegar o que era colocado nela, isto é, qualquer coisa doada pelos fiéis para uso de Cristo e para os pobres que ele carregava como um dever, mas carregava fora como um ladrão. Duas coisas podem ser notadas aqui. Primeiro, que Cristo vivia de esmolas como uma pessoa pobre: 'Quanto a mim, sou pobre e necessitado' (Sl 40:17). Em segundo lugar, não é contrário à perfeição manter esmolas em uma caixa de dinheiro. Assim o que lemos em Mateus (6:34), 'Não se preocupem com o amanhã,' não proíbe que alguém poupe para o amanhã, já que nosso Senhor fez exatamente isto, e ele é o supremo modelo de perfeição. Alguém pode perguntar por que nosso Senhor, já que sabia que Judas era um ladrão, confiou-lhe a caixa de dinheiro? Isto pode ser respondido de três maneiras. Primeiro, de acordo com Agostinho, Cristo fez isto para que sua Igreja fosse paciente quando fosse roubada; pois não é bom se não pode suportar aqueles que são maus. Assim lemos: 'Como um lírio entre os espinhos, assim é meu amor entre as donzelas' (Ct 2:2). Em segundo lugar, nosso Senhor confiou-lhe a caixa de dinheiro para diminuir seu perigo de condenação final, porque ele poderia então satisfazer sua ganância da caixa de dinheiro. Mas como se diz: 'Aquele que ama dinheiro não será satisfeito com dinheiro' (Ec 5:10). Em terceiro lugar, de acordo com outros, ele fez isto a fim de ensinar-nos que as coisas espirituais devem ser confiadas àqueles que são mais dignos, e as coisas temporais devem ser confiadas àqueles que são menos dignos. Assim os Apóstolos disseram: 'Não é apropriado que deixássemos de lado a pregação da palavra de Deus para servir às mesas' (Atos 6:2), e confiaram este trabalho a um dos diáconos. Mas por que diz aqui que apenas Judas disse isto quando o ungüento foi derramado, enquanto Mateus diz que os discípulos disseram isto? Uma resposta é que Mateus usa o plural pelo singular, como ele também fez em 'Aqueles que buscavam a vida da criança estão mortos' (2:20). Ou, alguém poderia responder que Judas foi o primeiro a reclamar e que isto incitou os outros a dizer o mesmo, embora não pela mesma motivo. — Comentário sobre João

João 12:7

Após relatar a indignação do traidor pela bondade mostrada à mulher, o Evangelista agora mostra como nosso Senhor pôs fim a isto. Primeiro, nosso Senhor responde à crítica injusta que Judas proferiu contra a mulher; em segundo lugar, ele rejeita a razão espiritual que Judas fingiu ter (v. 8). Ele diz: Deixa-a em paz, isto é, não a impeças. É bem sabido que muitas obras boas são feitas que, se nossa opinião tivesse sido pedida antes de serem feitas, não teríamos aconselhado que fossem feitas, porque algo melhor poderia possivelmente ter sido feito. Porém, após iniciadas, enquanto forem boas, não devem ser interrompidas. Assim, como diz Crisóstomo, antes de a mulher derramar o perfume, Jesus talvez preferisse que fosse dado aos pobres, mas agora que fora feito, ele conteve aqueles que tentavam impedi-la, dizendo: Deixa-a em paz: "Não impeças aquele que é capaz de fazer o bem. Se tu és capaz, tu também fazes o bem", como lemos em Provérbios (3:27). Ele acrescenta: Guarde-o para o dia do meu sepultamento, predizendo tanto sua morte próxima quanto a bondade que esta mulher estava pronta para fazer por ele em seu sepulcro se ele não o tivesse impedido ressuscitando tão logo, pois como lemos no Evangelho de Marcos (16:1): "Maria Madalena", junto com outras mulheres, "comprou aromas, para que fossem ungir-lhe". Por isso disse: Guarde-o para o dia do meu sepultamento, não o mesmo perfume que usou, mas perfume da mesma espécie, em geral ou em particular, ou mesmo um serviço semelhante. É como se dissesse: Não a impeças de fazer por mim enquanto estou vivo o que não poderá fazer por mim quando estiver morto. Pois, como disse, ela foi impedida pela ressurreição de Cristo ocorrer tão prontamente. Isto é expresso de maneira mais clara em Marcos (14:8): "Ela ungiu antecipadamente o meu corpo para o sepultamento". Mas ela tinha préconhecimento da morte de Cristo? De forma alguma: pois não entendia o que estava fazendo. Antes, foi impelida a fazê-lo por certo impulso interior. Frequentemente acontece que pessoas são impelidas a fazer coisas que não entendem, como no caso de Caifás, o sumo sacerdote, que disse: "Não compreendeis nada; nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo" (11:49). Coisas deste tipo são chamadas presságios, porque ocorrem antes do evento. — Comentário sobre João

João 12:8

Então, quando diz, os pobres sempre tendes convosco, ele rejeita a razão espiritual que Judas fingiu quando disse: "Por que não foi este unguento vendido por trezentos denários e dado aos pobres." Nosso Senhor respondeu, os pobres sempre tendes convosco. Aqui pode ser observado que às vezes deve-se fazer o que é menos necessário se a oportunidade permanece para fazer o que é mais necessário. Assim, embora fosse mais necessário que este unguento fosse dado aos pobres em vez de ser usado para ungir os pés do Senhor, no entanto, porque havia ainda oportunidade para fazer o anterior, pois sempre temos os pobres conosco, nosso Senhor permitiu o que era menos necessário. Na declaração de que os pobres sempre tendes convosco, somos levados a compreender a comunhão que os ricos devem ter para com os pobres: "Faze-te companhia dos pobres" (Eclo 4:7). Mas a mim nem sempre tendes. No entanto, lemos em Mateus (28:20): "Eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos." Agostinho dá esta resposta. Quando nosso Senhor disse, mas a mim nem sempre tendes, ele estava falando de sua presença corporal, isto é, como aparecia e na forma em que subiria aos céus: "Novamente, deixo o mundo" (16:28). Mas ele está sempre conosco como presente em sua divindade; e também está presente sacramentalmente na Igreja. Outra explicação seria esta. Quando nosso Senhor disse isto estava pensando na presença de sua divindade. Agora alguns parecem possuir Cristo espiritualmente, seja no sacramento ou professando a fé; no entanto não o possuirão sempre porque pertencem à Igreja apenas nominalmente, e não por mérito. Estes são os servos. Mas os filhos o possuirão sempre porque "o filho permanece para sempre" (8:35). Assim ele disse a Judas, mas a mim nem sempre tendes, porque te fizeste indigno disto. Como diz Crisóstomo, nosso Senhor estava repreendendo Judas quando disse isto: pois ao se ofender que este respeito fosse mostrado a Cristo, ele parecia considerar a presença de Cristo como um fardo. Portanto Cristo disse, a mim nem sempre tendes. Isto era como dizer: Eu sou um fardo para você; mas espere um pouco, e estarei partindo. — Comentário sobre João

João 12:9

A seguir, o Evangelista mostra como Jesus foi honrado por muitos judeus; primeiro, pela multidão que ali foi vê-lo; em segundo lugar, pela multidão que o encontrou a caminho de Jerusalém (v. 12). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, mostra o entusiasmo daqueles que vieram vê-lo; em segundo lugar, mostra a veemência dos fariseus despertada pela sua inveja (v 10). A primeira parte se divide em duas partes: primeiro, ele afirma que uma multidão veio até ele; em segundo lugar, ele explica a razão pela qual eles vieram. Quanto ao primeiro, ele diz: Quando a grande multidão de judeus soube que ele estava ali, eles foram para Betânia. Isto estava de acordo com o convite de nosso Senhor: “Vinde a mim, todos os que estais cansados ​​e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). E assim, quando sabemos onde Jesus está, devemos ir até ele rapidamente. Agora havia duas razões pelas quais eles vieram. A primeira era desfrutar a visão e os ensinamentos de Cristo. Em segundo lugar, eles vieram ver Lázaro. E eles vieram ver Lázaro por dois motivos. Primeiro, por causa do milagre extraordinário realizado em Lázaro, isto é, ele ter sido ressuscitado depois de quatro dias no túmulo; e o povo desejou ver isto: “As tuas obras são maravilhosas, e a minha alma as conhece bem”, isto é, procura compreendê-las (Sl 138,14). Em segundo lugar, vieram porque esperavam aprender alguma coisa sobre a outra vida com Lázaro, porque o homem tem um desejo inato de um conhecimento deste tipo, apesar do que dizem os tolos: "Porque raciocinaram mal, dizendo a si mesmos: 'Curta e dolorosa é a nossa vida, e não há remédio quando um homem chega ao seu fim, e não se sabe de ninguém que tenha regressado do Hades'" (Sb 2, 1). Mas aqui está ele! Lázaro, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, ressuscitou do mundo inferior. - Comentário sobre João

João 12:10-11

Então o Evangelista descreve a veemência dos fariseus em sua inveja, quando ele diz, Portanto, os chefes dos sacerdotes planejaram matar também a Lázaro. Nisto eles estavam se opondo a Deus: pois Deus o ressuscitou e eles queriam matá-lo: "Correndo teimosamente contra ele" (Jó 15:26). Então a razão para sua veemência é estabelecida, porque por causa dele muitos dos judeus iam embora e criam em Jesus. Mas uma vez que Cristo havia curado muitas pessoas, tais como o paralítico e o homem cego de nascença, por que queriam matar apenas a Lázaro? Crisóstomo dá quatro razões. Primeira, porque este milagre era mais evidente, foi realizado diante de muitas pessoas, e era absolutamente assombroso ver um homem morto durante quatro dias caminhando e falando. A segunda razão era que Lázaro era uma pessoa bem conhecida, enquanto o cego era desimportante, tanto que até o expulsaram do templo. A terceira razão era porque este milagre foi realizado próximo ao tempo de uma grande festa, e todo o povo judeu que havia vindo para a festa desconsiderou as solemnidades e foi a Betânia. A quarta razão era que nos outros milagres eles poderiam acusar Cristo de quebrar o Sábado, e deste modo alienar o povo dele; mas desta vez aquele caminho estava fechado. E assim porque não podiam encontrar razão para atacar Jesus, atacaram a Lázaro como a melhor forma de ocultar o milagre: "Seus pés correm para o mal e se apressam para derramar sangue" (Pv 1:16). — Comentário sobre João

João 12:12

Aqui vemos o fervor da multidão que saiu ao encontro de Cristo. Primeiro, saem ao encontro de Cristo; em segundo lugar, temos a reação dos fariseus (v 19). Quanto ao primeiro, o Evangelista faz três coisas: primeiro, menciona sua saída; em segundo lugar, relata a entrada de Nosso Senhor (v. 14); e em terceiro lugar, declara por que a multidão saiu ao seu encontro. Ele menciona quatro coisas acerca da multidão que saiu ao Senhor. Primeiro, o tempo em que saíram, no dia seguinte, isto é, o dia seguinte àquele que ele quis dizer quando disse, "seis dias antes da Páscoa"; em outras palavras, o décimo dia do mês. Isto está de acordo com a prefiguração em Êxodo (12:3), onde lemos que o cordeiro pascal que deveria ser imolado no décimo quarto dia à tarde deveria ser procurado no décimo dia do mês. Em segundo lugar, os que saíram são descritos como uma grande multidão que havia vindo à festa. Eles significam as multidões do povo que seriam convertidas a Cristo: "Que os povos se reúnam ao teu redor" (Sl 7:7). Ele diz à festa, porque os crentes se convertem a Cristo para que possam vir ao dia de festa da Jerusalém celeste: "Muitos virão do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus" (Mt 8:11). Em terceiro lugar, o Evangelista menciona seu motivo para sair, que era que tinham ouvido que Jesus ia a Jerusalém: ele diz que ouviram que Jesus vinha a Jerusalém. Pois todos os fiéis se convertem a Cristo por aquilo que ouvem acerca da fé: "A fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo" (Rm 10:17); "e os filhos de Israel ouviram que o Senhor havia visitado os filhos de Israel; e o povo creu", como lemos em Êxodo (4:31). — Comentário a João

João 12:13

Em quarto lugar, ele menciona como eles se conduziram. E primeiro de tudo, o que fizeram: pegaram ramos de palmeira. Ora, a palmeira, pois retém seu frescor, significa vitória. Assim, na antiguidade, era conferida aos conquistadores como símbolo de sua vitória. Novamente, lemos no Apocalipse (7:9) dos mártires conquistadores que seguravam 'ramos de palmeira em suas mãos.' E assim os ramos de palmeira foram dados como louvor, significando vitória, porque nosso Senhor estava para conquistar a morte morrendo e triunfar sobre Satanás, o príncipe da morte, pela vitória da cruz. E saíram ao encontro dele: 'Preparai-vos para vos encontrardes com vosso Deus, ó Israel!' (Am 4:12). Em segundo lugar, o Evangelista menciona o que disseram: exclamaram Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel! Aqui combinam tanto petição quanto louvor. Há petição quando dizem 'Hosana', isto é 'Salvai-nos, peço-vos.' É como dizer: 'hosy', que significa 'salvar', e 'anna', que significa 'pedir.' Segundo Agostinho, isto não é uma palavra, mas antes uma exclamação de alguém orando. E é bem apropriado que peçam ao Senhor Jesus pela salvação, porque lemos em Isaías (35:4): 'Eis que vosso Deus virá e vos salvará'; 'Desperta tua fortaleza, e vem para nos salvar!' (Sl 80:2). Eles o louvam por duas coisas: por sua vinda e pelo poder de seu reinado ou reino. Louvam sua vinda quando dizem 'Bendito o que vem em nome do Senhor.' Note que abençoar é falar bem de alguém. Ora, Deus nos abençoa de um modo, e nós abençoamos a Deus de outro modo. Pois quando Deus nos abençoa, Ele nos torna bons, uma vez que para Deus falar é fazer: 'Pois Ele ordenou (isto é, falou), e foram criados' (Sl 148:5). Mas quando abençoamos a Deus, confessamos sua bondade: 'Bendizemos-te da casa do Senhor' (Sl 118:26); 'Bendito seja todo aquele que te abençoa!' (Gn 27:29). Portanto, 'Bendito o que vem em nome do Senhor', pois Cristo agiu em nome de Deus, porque tudo o que fez dirigiu à glória de Deus. Ora, porque tanto o Pai quanto o Filho são o Senhor, a frase 'em nome do Senhor' pode ser entendida de dois modos. De um modo, 'Bendito o que vem em nome do Senhor', significa 'Bendito o que vem em seu próprio nome, como Senhor': 'O Senhor é nosso governador' (Is 33:22). Moisés não veio em nome do Senhor deste modo, porque veio como servo: 'Agora Moisés foi fiel em toda a casa de Deus como servo, para testemunhar das coisas que ainda haviam de ser faladas' (Hb 3:5). Segundo Agostinho, a melhor interpretação seria dizer que 'em nome do Senhor' significa 'em nome do Pai.' Pois as palavras de Cristo nos direcionam para isto: 'Vim em nome de meu Pai' (5:45). Além disso, há dois modos pelos quais se diz que Cristo veio em nome do Pai. Primeiro, Ele veio como o Filho, o que implica o Pai; em segundo lugar, Ele veio para manifestar o Pai: 'Manifestei teu nome aos homens que tu me deste' (17:6). O povo louva o poder de seu reinado quando dizem 'o Rei de Israel!' Literalmente, os judeus acreditavam que Ele tinha vindo para reinar sobre eles temporalmente, e libertá-los da sujeição aos romanos. Por isso o saudavam como rei: 'Ele reinará como rei e procederá com sabedoria' (Jr 23:5); 'Eis que um rei reinará em retidão, e príncipes governarão em justiça' (Is 32:1). Devemos notar que as palavras acima podem ser colhidas dos Salmos. Pois quando o Salmo diz: 'A pedra que os construtores rejeitaram...' (Sl 118:22), prossegue então: 'Salvai-nos, pedimos-te, ó Senhor! Bendito aquele que entra em nome do Senhor!' (v 25-26). E aí Jerônimo, conforme o significado do hebraico, traduziu 'hosana' como 'bendito.' Mas o que o povo acrescentou, 'o Rei de Israel', não está nos salmos. Em vez disso, o Salmo diz: 'O Senhor é Deus, e Ele nos deu luz' (v 27). Ao dizer isto, o povo, por sua cegueira, diminuiu seu louvor: pois o Salmo louva nosso Senhor como Deus, mas eles o louvaram como um rei temporal. — Comentário sobre João

João 12:14

Quando o Evangelista diz, e Jesus achou um jumentinho e se sentou sobre ele, ele descreve a vinda de nosso Senhor: primeiro, ele diz como veio; em segundo lugar, ele menciona uma profecia (v 15); e em terceiro, ele descreve o estado de ânimo dos discípulos quanto a este evento (v 16). Cumpre notar quanto ao primeiro ponto, que João o Evangelista escreveu seu Evangelho depois de todos os outros. E assim, tendo cuidadosamente notado o que estes haviam escrito, ele meramente resumiu o que eles já haviam mencionado, mas preencheu o que eles haviam omitido. Portanto, uma vez que os outros Evangelistas já haviam contado como o Senhor enviou dois de seus discípulos para trazer o jumento, João contenta-se em mencionar brevemente que Jesus achou um jumentinho e se sentou sobre ele. Aqui se deve observar que as ações de Cristo estão de certa forma no meio entre os eventos do Antigo Testamento e do Novo Testamento. Assim as multidões o louvaram, tanto a que ia adiante Dele, quanto a que o seguia, porque as ações de Cristo são a regra e exemplar das coisas que se fazem no Novo Testamento, e foram prefiguradas pelos pais do Antigo Testamento. O jumentinho é um animal desajeitado, e significa os Gentios. Cristo se sentou sobre ele para significar que redimia os Gentios: "Dar-te-ei como luz aos gentios, para que minha salvação chegue até aos confins da terra" (Is 49:6); "Felizes os que semeais junto às águas, que deixais os pés do boi e do jumento andar livres", isto é, assim unindo os judeus e os Gentios em uma única fé. Agora Mateus escreveu seu Evangelho para os judeus, e assim fez menção de uma jumenta. Esta jumenta significa a sinagoga dos judeus, que era como uma mãe para os Gentios nas matérias espirituais, porque "de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém" (Is 2:3). Os outros Evangelistas, porém, escreveram seus Evangelhos para os Gentios, e assim mencionam o jumentinho da jumenta. — Comentário sobre João

João 12:15

Quando o Evangelista diz, como está escrito, Não temas, filha de Sião! ele cita a profecia que foi escrita em Zacarias (9:9). Primeiro, ele os tranquiliza; segundo, ele promete uma majestade real; e terceiro, ele acrescenta o benefício que o rei trará. Ele os tranquiliza quando diz, Não temas, filha de Sião. Sião era a fortaleza em Jerusalém onde o rei habitava. A filha de Sião, portanto, seria o povo de Jerusalém e de Judeia que estava sujeito ao rei de Jerusalém. Assim os judeus são instruídos: Não temas, porque o Senhor é teu defensor: "Quem és tu, para que tenhas medo do homem mortal, do filho do homem que se murcha como a erva?" (Is 51:12); "O Senhor é a luz da minha vida; de quem terei medo?" (Sl 27:1). Aqui o Evangelista está afastando o medo mundano e servil deles. Ele promete uma majestade real, dizendo, eis que vem teu Rei: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu" (Is 9:6); "Sobre o trono de Davi e sobre o seu reino" (9:7). Ele diz, teu Rei, isto significa, tomando carne de ti, porque "Pois ele não veio em auxílio de anjos, mas em auxílio da descendência de Abraão" (Hb 2:16). Novamente, teu Rei, isto é, para teu benefício. Assim ele acrescenta, vem, para ti: "Ah! Se hoje compreendesses também o que importa para a tua paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos" (Lc 19:42). Mas quando eles resistiram, impediram seu próprio bem. O Rei vem para ti, digo, não para te prejudicar, mas para te libertarão; assim ele acrescenta, montado sobre uma jumenta e um jumentinho! Isto significa a misericórdia do Rei, que é bem-vinda aos seus súditos: "O seu trono assenta-se sobre a benevolência" (Pv 20:28). Isto é justamente o oposto de "A ira de um rei é como o rugido de um leão" (Pv 19:12). Ele está dizendo, com efeito: Ele não vem como um Rei altivo -- o que o tornaria odioso -- mas com mansidão: "Se te constituírem senhor do banquete, não te exalces" (Sir 32:1). Portanto, não temas que o Rei te oprima. Agora a Lei Antiga foi dada em temor, porque a Lei produzia escravos. Esta frase também significa o poder do Rei, porque vindo com humildade e em fraqueza ele atraiu o mundo inteiro: "A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1 Co 1:25). — Comentário a João

João 12:16

Então quando diz, seus discípulos não entenderam isto no princípio, ele descreve o estado mental dos discípulos a respeito desta profecia. E ele admite sua própria ignorância e a dos discípulos, pois como lemos: "A pessoa justa é a primeira a se acusar" (Pv 18:17). Então ele diz, seus discípulos não entenderam isto, o que foi predito, no princípio, ou seja, antes da paixão. Mas quando Jesus foi glorificado, ou seja, quando mostrou o poder de sua ressurreição, então se lembraram que isto tinha sido escrito a respeito dele e tinha sido feito a ele. A razão pela qual conheceram apenas depois que ele foi glorificado foi porque foi então que receberam o poder do Espírito Santo, que os fez mais sábios do que todos os sábios: "O sopro do Todo-Poderoso faz um homem entender" (Jó 32:8). — Comentário sobre João

João 12:17

Depois ele menciona por que a multidão foi ao encontro de Jesus, que era para dar testemunho. Isto foi feito pela multidão que estava com ele, na ressurreição de Lázaro, quando ele chamou Lázaro para fora do túmulo e o ressuscitou dentre os mortos. - Comentário sobre João

João 12:18

A razão pela qual a multidão foi ao seu encontro foi porque ouviram que ele havia feito este sinal. “Pois os judeus exigem sinais” (1 Cor 1:22). Ora, este foi um sinal mais claro e maravilhoso que os outros; assim, Cristo fez com que fosse o último para gravá-lo com mais força em sua memória. - Comentário sobre João

João 12:19

Então, quando o Evangelista diz: Os fariseus então disseram uns aos outros, ele descreve a reação dos fariseus, que estavam enfurecidos porque seus planos tinham sido frustrados. Assim eles dizem: Vedes que nada podeis fazer. Os fariseus disseram isso por inveja, como se dissessem: "Não estamos tendo sucesso, isto é, em nossas más intenções; falhamos em detê-lo". Mas por que estavam enfurecidos contra a multidão cega? Porque o mundo foi atrás daquele por quem o mundo foi feito. Isso era um sinal de que todo o mundo o seguiria: "Viveremos em sua presença. Conheceremos e seguiremos o Senhor" (Os 6:3). Crisóstomo, contudo, pensa que essas palavras foram ditas pelos fariseus que criam, mas foram ditas em privado por medo dos judeus. E eles disseram isso para parar a perseguição de Cristo. É como se estivessem dizendo: Não importa quais armadilhas ponhais, ele crescerá em estatura e sua glória aumentará. Por que então não parais vosso enredo? Isso é praticamente o mesmo que o conselho de Gamaliel nos Atos (5:34). — Comentário sobre João

João 12:20

Tendo descrito a glória que Cristo recebeu da ajuda de seus amigos e da devoção da multidão, o evangelista descreve agora a glória que Cristo recebeu da devoção dos gentios. Primeiro, é mencionada a devoção dos gentios; em segundo lugar, esta devoção é relatada (v 22); e em terceiro lugar, vemos a predição da paixão de Cristo (v 23). No que diz respeito à devoção dos gentios, duas coisas são expostas: primeiro, a sua devoção aos sacramentos da Lei Antiga; em segundo lugar, a sua devoção a Cristo (v 21). A devoção dos gentios aos sacramentos do Antigo Testamento é demonstrada pelo fato de visitarem o templo. Assim ele diz: Ora, entre os que subiram a Jerusalém para adorar na festa estavam alguns gentios. Na verdade, ele está dizendo: Não apenas os judeus, mas também os gentios honraram a Cristo. Segundo uma Gloss, a razão pela qual subiram a Jerusalém foi porque eram prosélitos, convertidos ao rito judaico pela pregação daqueles judeus espalhados pelo mundo, e que se esforçavam por converter quem pudessem: “Você atravessa mar e terra para fazer um único prosélito” (Mt 23,15). E assim, seguindo o rito judaico, subiram com os outros. Mas uma razão melhor é dada por Crisóstomo, a saber, que como lemos em Macabeus (3:2), o templo de Deus em Jerusalém era tido em tal estima por todas as pessoas e governantes em todo o mundo que eles consideravam uma honra glorificar o templo com os melhores presentes. E assim acontecia que nos dias de festa até muitos gentios subiam a Jerusalém. Um exemplo disso é mencionado em Atos (8:27), onde fala de um eunuco, ministro da Rainha Candace da Etiópia, que veio a Jerusalém para adorar. Assim diz Isaías: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos» (Is 56,7). O fato de esses gentios virem ao templo por devoção prefigurava a conversão dos gentios à fé. - Comentário sobre João

João 12:21

A devoção dos gentios a Cristo é demonstrada pelo seu desejo de vê-lo; pois o Evangelista diz, Assim estes, isto é, os gentios, vieram a Felipe. Aqui devemos notar que Cristo pessoalmente pregou apenas aos judeus: "Pois vos digo que Cristo se fez servo dos circuncisos, para mostrar a verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos patriarcas" (Rm 15:8); mas pregou aos gentios através dos apóstolos. "E enviarei dos que forem salvos para as nações, e elas anunciarão a minha glória aos gentios" (Is 66:19); "Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28:19). Isto era indicado de antemão, visto que os gentios que desejavam ver Cristo não vieram a ele primeiro, mas a um dos seus discípulos, a Felipe. E isto era apropriado, porque Felipe foi o primeiro a pregar àqueles que não eram da lei judaica, a saber, aos samaritanos, como vemos nos Atos (8:5): "Felipe desceu à cidade de Samaria, e lhes pregava a Cristo." Isso também era apropriado por causa do seu nome: pois "Felipe" significa a "boca da lanterna." Ora, os pregadores são a boca de Cristo: "Se proferires o precioso e não o vil, serás como a minha boca" (Jr 15:19); e Cristo também é a lanterna: "Eu te dei como luz para as nações" (Is 42:6). Era também apropriado a ele por causa do seu lugar: pois Felipe era de Betsaida, que significa "caça," e os pregadores caçam aqueles que convertem a Cristo: "Enviarei muitos caçadores, e os caçarão" (Jr 16:16). Novamente, era apropriado porque Betsaida era na Galileia, que significa "transmigração," e os gentios, pela pregação dos apóstolos, foram transmigrados dos deuses do paganismo para o estado de crentes: "Portanto, filho do homem, prepara a tua bagagem de exilado, e sai no exílio diante deles," como lemos em Ezequiel (12:3). Estes gentios se aproximaram de Felipe e expressaram seus desejos, dizendo, desejamos ver Jesus. Isto significa que aqueles gentios que não viram Cristo em carne mas foram convertidos à fé pelo ministério dos apóstolos, desejavam vê-lo glorificado no céu: "Toda a terra desejava ver a face de Salomão" (1 Rs 10:24). — Comentário sobre João

João 12:22

Então, quando ele diz, Filipe foi e contou a André; André foi com Filipe e eles contaram a Jesus que a notícia da devoção dos gentios é levada a Cristo. Nesta ação segue-se uma ordem definida, porque “as coisas que vêm de Deus estão ordenadas” (Rm 13,1). Ora, pertence à ordem divina que as coisas inferiores sejam reconduzidas a Deus através das superiores, e como André superou Filipe entre os apóstolos, porque se converteu antes dele, Filipe não quis levar estes gentios a Cristo por si mesmo, mas através de André, talvez lembrando que o Senhor tinha dito: «Não vás a parte alguma entre os gentios» (Mt 10, 5). E isto é o que ele diz, Filipe foi e contou a André; André foi com Filipe e eles contaram a Jesus. Isso nos ensina que todas as coisas devem ser feitas com o conselho das autoridades. Assim, até mesmo Paulo subiu a Jerusalém e conversou com os apóstolos sobre o Evangelho que ele estava pregando entre os gentios (Gl 2:2). Além disso, a partir de seus nomes podemos deduzir duas coisas que são necessárias para os pregadores, se quiserem levar outros a Cristo. A primeira é um discurso claro e ordenado; e isso é indicado pelo nome de Filipe, que significa “boca da lanterna”. A segunda é a virtude, manifestada em boas ações; e isso é indicado pelo nome de André, que tem o significado de “força”. “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e toda a sua força pelo sopro da sua boca” (Sl 33:6). - Comentário sobre João

João 12:23

Depois, a paixão de Cristo é anunciada: primeiro, Cristo prediz que o tempo da sua paixão está próximo; em segundo lugar, ele insinua que sua paixão é necessária (v. 24); e em terceiro lugar, ele menciona a necessidade de outros sofrerem (v. 25). Ele diz: Chegou a hora de o Filho do homem ser glorificado. Aqui deve ser notado que nosso Senhor, vendo esses gentios apressando-se em vê-lo, e entendendo que neles a conversão dos gentios estava de alguma forma começando, predisse a iminência de sua paixão, mais ou menos como quem vê um campo de trigo ficando branco diz que chegou a hora de usar a foice para a colheita "(4:35). É assim que o Senhor fala aqui. Visto que os gentios querem me ver, ele diz: Chegou a hora de o Filho do homem ser glorificado. Agora houve três eventos onde ele foi glorificado. Primeiro, na sua paixão: “Cristo não se exaltou (glorificou) para ser feito sumo sacerdote”, no altar da cruz, “mas foi nomeado por aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho, hoje eu te gerei’”, como lemos em Hebreus (5,5). Em referência a isso ele diz: Chegou a hora de o Filho do homem ser glorificado, isto é, de sofrer, porque os gentios não se converterão a ele antes de sua paixão. Na verdade, na sua paixão ele foi glorificado tanto com sinais visíveis, como o escurecimento do sol, o rasgo do véu do templo e assim por diante, como com sinais invisíveis, como a vitória pela qual em si mesmo ele venceu os poderes das trevas, como afirmado em Colossenses (2:15). Anteriormente ele havia dito: “A minha hora ainda não chegou” (2:4), porque a devoção dos gentios não tinha sido tão intensa como era agora. Em segundo lugar, ele foi glorificado na sua ressurreição e ascensão. Pois era necessário que Cristo primeiro ressuscitasse e ascendesse ao céu, e assim fosse glorificado, para enviar o Espírito Santo sobre os apóstolos, através dos quais os gentios deveriam ser convertidos: “Porque ainda o Espírito não havia sido dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (7:39); Cristo “subiu às alturas: capturou o seu despojo” (Sl 69,19). Em terceiro lugar, ele foi glorificado pela conversão dos gentios: em Filipenses (2:11) lemos: “Toda língua confessará que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai”. - Comentário sobre João

João 12:24

Então quando ele diz: Eu vos digo, ele insinua a necessidade de sua paixão: primeiro, ele sugere sua necessidade; em segundo lugar, o benefício que traz. A necessidade da paixão de Cristo é causada pela conversão dos gentios, que não pode ocorrer a menos que o Filho do Homem seja glorificado por sua paixão e ressurreição. E isto é o que ele afirma: Na verdade, na verdade, eu vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto. Com respeito ao sentido literal deste texto, deve-se notar que usamos um grão de trigo ou para pão ou como semente. Neste texto, devemos entender que o trigo é tomado como sementes, e não como o trigo usado para pão, pois neste último caso nunca cresceria e produziria fruto. Ele diz: morre, não porque perde sua força, mas porque é então transformado em algo mais: "O que semeas não vivifica, se primeiro não morrer" (1 Co 15:36). Agora assim como a palavra de Deus, na medida em que está revestida de um som que pode ser ouvido, é uma semente plantada na alma de uma pessoa para produzir o fruto de obras boas - "A semente é a palavra de Deus" (Lc 8:11) - assim a Palavra de Deus, revestida em carne, é uma semente enviada ao mundo para produzir uma grande colheita; assim também é comparada a um grão de mostarda, em Mateus (13:31). Assim Cristo está dizendo: Eu vim como semente, para produzir fruto; e assim vos digo na verdade: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só, isto é, a menos que eu morra, o fruto da conversão dos gentios não seguirá. Ele se compara a um grão de trigo porque a razão pela qual ele veio foi para refrescar e nutrir nossos espíritos, o que é feito principalmente pelo pão feito de trigo: "pão para fortalecer o coração do homem" (Sl 104:15); "O pão que eu darei é a minha carne, pelo mundo" (6:51). Mas os gentios seriam convertidos apenas pela morte de Cristo? Considerando o poder de Deus, poderiam ter sido convertidos sem ela; mas segundo o decreto de Deus foram convertidos pela morte de Cristo como forma mais apropriada: "Sem derramamento de sangue não há remissão", como é dito em Hebreus (9:22); "se eu não me for, o Consolador não virá a vós" (16:7). O benefício produzido pela paixão de Cristo é dado quando ele diz: mas se morrer, produz muito fruto. Ele está dizendo em efeito: A menos que esta semente caia na terra pela humilhação da paixão - "Ele se humilhou e se tornou obediente até à morte" (Fl 2:8) - não há benefício, porque fica ela só. Mas se morre, isto é, é condenado à morte e morto pelos judeus, produz muito fruto. O primeiro destes frutos é a remissão do pecado: "Todo este é o fruto: tirado o seu pecado" (Is 27:9). Na verdade, este fruto foi produzido pela paixão de Cristo: "Pois também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus" (1 Pe 3:18). O segundo destes frutos é a conversão dos gentios a Deus: "Eu vos designei para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça" (15:16). Este fruto também foi produzido pela paixão de Cristo: "E eu, quando for elevado da terra, trarei todos a mim" (12:32). Um terceiro fruto é o fruto da glória: "O fruto dos bons trabalhos é ilustre (isto é, glorioso)" (Sb 3:15); "Quem ceifa recebe galardão e ajunta fruto para a vida eterna" (4:36). E novamente, a paixão de Cristo produziu este fruto: "Temos, pois, confiança para entrar no santuário pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele inaugurou para nós, através do véu, quer dizer, da sua carne" (Hb 10:19-20). — Comentário a João

João 12:25

Então ele menciona a necessidade de outros morrerem, aqueles que se expõem ao sofrimento pelo amor de Cristo. Primeiro, ele expõe a necessidade de sua morte; em segundo lugar, nos encoraja a fazer isto (v. 26). A respeito do primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, expõe a necessidade de morrer pela causa de Cristo; em segundo lugar, menciona o benefício que esta morte traz (v. 25). Na verdade, cada um ama a sua própria vida, mas alguns a amam absolutamente, sem qualificação, e outros a amam parcialmente, de forma qualificada. Amar alguém é querer o bem para essa pessoa; assim, amar a própria vida é querer o bem para ela. Portanto, aquele que quer o bem sem qualificação para a sua vida, ama-a de forma absoluta; enquanto aquele que quer para a sua vida algum bem parcial ama-a de forma qualificada. Ora, os bens absolutos da vida são aqueles que tornam a vida boa, a saber, o bem supremo, que é Deus. Assim, aquele que quer o bem divino e espiritual para a sua vida, ama-a de forma absoluta; enquanto aquele que lhe quer bens terrenos, como riquezas, honras e prazeres, e coisas do tipo, ama-a de forma qualificada. "Aquele que ama o pecado odeia a sua própria vida" (Sl 10:5); "Se permitires que tua alma se deleite em maus desejos, te fará motivo de riso para teus inimigos" (Sir 18:31). Esta passagem, portanto, pode ser entendida de duas formas. De uma forma, como dizendo: aquele que ama a sua vida de forma absoluta, isto é, quanto aos bens eternos, perde-a, ou seja, expõe-a à morte por Cristo. Mas este não é o verdadeiro sentido. Assim, significa: aquele que ama a sua vida de forma qualificada, isto é, quanto aos bens temporais, perde-a de forma absoluta: "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?" (Mt 16:26). Que este é o verdadeiro significado é mostrado pela declaração que se segue: aquele que odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna. Portanto, aquele que ama a sua vida neste mundo, isto é, quanto aos bens mundanos, perde-a quanto aos bens eternos: "Ai de vós que agora rides, pois vós chorareis e vos lamentareis," como lemos em Lucas (6:25); "Filho, lembra-te de que recebeste bens durante a tua vida, e Lázaro sofreu males; agora ele é consolado aqui, e tu sofres angústia" (Lc 16:25). O benefício produzido por esta morte é afirmado quando ele diz: e aquele que odeia a sua vida neste mundo, ou seja, aquele que nega os bens da sua vida presente, e suporta, por Deus, as coisas que parecem más neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5:10); "Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, mãe e até mesmo sua própria vida, não pode ser meu discípulo," como lemos em Lucas (14:26). Observa que o que foi dito acima sobre o grão de trigo está de acordo com este ensinamento. Pois assim como Cristo foi enviado ao mundo como uma semente que deveria dar muito fruto, assim também quaisquer bens temporais que nos foram dados por Deus nesta vida não nos foram dados como fruto, mas sim para que por meio deles obtenhamos o fruto de uma recompensa eterna. De fato, a nossa própria vida é um dom temporal de Deus para nós. Portanto, aquele que a expõe por Cristo gera muito fruto. Tal pessoa, portanto, odeia a sua própria vida, ou seja, expõe a sua própria vida, e semeia pela causa de Cristo, para ganhar a vida eterna: "Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará com alegria, trazendo seus molhos" (Sl 126:6). E o mesmo é verdadeiro para aqueles que arriscam suas riquezas e outros bens pela causa de Cristo, e os compartilham com outros, para obter a vida eterna: "Aquele que semeia com abundância também colherá com abundância" (2 Cor 9:6). — Comentário sobre João

João 12:26

Agora, porque parece difícil alguém odiar a própria vida, nosso Senhor nos encoraja a fazer isso, dizendo: Se alguém me serve, siga-me. Primeiro, seu encorajamento é dado; em segundo lugar, a razão deste incentivo. Em relação ao primeiro ele faz três coisas. Primeiro, ele descreve seus fiéis; em segundo lugar, ele exorta-os a imitá-lo; em terceiro lugar, ele indica a recompensa daqueles que o imitam. Observemos, em relação ao primeiro, a dignidade dos fiéis de Cristo, pois são ministros ou servos de Cristo: “Eles são ministros de Cristo? Eu também” (2 Cor 11, 23). Assim, servem a Cristo aqueles que buscam as coisas de Cristo; mas aqueles que procuram o seu próprio benefício não são servos de Cristo, mas servos de si mesmos: «Todos procuram os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo» (Fl 2,21). Os sacerdotes são servos na medida em que administram os sacramentos aos fiéis: «Assim devemos considerar-nos como servos de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1). Mais uma vez, cada um dos fiéis que guarda os mandamentos de Cristo é seu servo: «Ajamos em todas as circunstâncias como ministros de Deus» (2 Cor 6, 4). No que diz respeito ao segundo, observe a glória e a grandeza dos fiéis de Cristo, pois ele diz: ele deve me seguir. Isto é como dizer: Seguimos nossos mestres, a quem servimos. Portanto, se alguém me serve, siga-me, para que, assim como eu sofro a morte para dar muito fruto, assim também o meu servo. Agora, seguir a Cristo é uma grande glória: “É uma grande glória seguir o Senhor” (Eclo 23,38); “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem” (10:27). Quanto ao terceiro, note a bem-aventurança dos fiéis, pois onde eu estiver, não só no lugar, mas também no que diz respeito à partilha da glória, ali estará também o meu servo: «Onde estiver o corpo, ali se reunirão as águias» (Mt 24,28); “Ao vencedor, eu lhe concederei que se sente comigo no meu trono” (Ap 3:21). A razão para este encorajamento é dada quando ele diz: se alguém me servir, o Pai o honrará, pois o Pai honra qualquer um que sirva a Cristo. Agora lemos acima: “para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai” (5:23). Assim, é a mesma coisa honrar o Filho e honrar o Pai. Mas o Pai diz: “Aqueles que me honram, eu honrarei” (1Sm 2:31). Assim, o Pai de Jesus honrará aquele que ministra a Jesus, não buscando o que é seu, mas as coisas de Jesus Cristo. Jesus não disse: “Eu o honrarei”, mas o Pai o honrará, porque essas pessoas não pensavam naquele momento que ele era igual ao Pai. Ou pode-se dizer que Jesus disse isso para mostrar quão intimamente seus servos estão relacionados com ele, visto que serão honrados por aquele mesmo que honra o Filho. Pois a honra que o Filho tem por sua natureza, eles a terão pela graça. Assim, Agostinho diz: “Um filho adotivo não pode receber maior honra do que estar onde está o Filho único”. “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29). - Comentário sobre João

João 12:27

Acima, vimos a glória mostrada a Cristo por vários tipos de pessoas; aqui o Evangelista considera a glória mostrada a Cristo por Deus. Primeiro, ele menciona que Cristo pediu glória; em segundo lugar, a promessa de glória é feita. Quanto ao primeiro ele faz duas coisas. Primeiro, o estado interior de Cristo é dado; em segundo lugar, ele menciona o pedido feito por Cristo. Note, quanto ao primeiro, que parece incongruente Cristo estar dizendo, Agora minha alma está perturbada, pois ele havia exortado seus fiéis a odiar suas próprias vidas neste mundo; mas com sua própria morte aproximando-se, ouvimos o próprio Senhor dizendo, Agora minha alma está perturbada. Isto leva Agostinho a dizer: "Ó Senhor, Tu comandas minha alma a seguir. Mas vejo tua própria alma perturbada. Que apoio deverei procurar, se a rocha se desmorona?" Assim devemos primeiro examinar este estado perturbado de Cristo, e em segundo lugar, por que ele quis passar por isto. Quanto ao primeiro, devemos notar que, propriamente falando, uma coisa é dita estar perturbada quando é greatly agitada. Daí quando o mar está muito agitado é dito estar perturbado. E assim sempre que uma coisa ultrapassa os limites de seu repouso e tranqüilidade, é dita estar perturbada. Agora na alma humana há uma área sensível e uma área racional. A área sensível da alma é perturbada quando se torna fortemente afetada por certos movimentos. Por exemplo, quando é contraída pelo medo, elevada pela esperança, dilatada pela alegria, ou de outra forma afetada por uma ou outra das emoções. Às vezes esta perturbação permanece dentro dos limites da razão, e às vezes ultrapassa os limites da razão, a saber, quando a razão em si é perturbada. E embora esta última condição ocorra muito freqüentemente em nós, não é encontrada em Cristo, pois ele é a Sabedoria do Pai. Na verdade, não é encontrada em nenhuma pessoa sábia; assim a tese estóica de que aquele que é sábio não é perturbado, isto é, em sua razão. Acordemente, o significado de Agora minha alma está perturbada, é isto: Minha alma é afetada pelas emoções de medo e tristeza em sua parte sensível; mas estas emoções não perturbam minha razão, e ela não abandona sua própria ordem. "Começou a entristecer-se e a angustiar-se extremamente" (Mc 14:33). Tais emoções, porém, existem em nós de outra forma do que em Cristo. Em nós, elas surgem da necessidade, na medida em que somos movidos e afetados de fora, por assim dizer. Mas em Cristo, elas não surgem da necessidade, mas do comando da razão, pois nunca houve nele nenhuma emoção a não ser aquela que ele mesmo despertou. Pois em Cristo os poderes inferiores estavam sujeitos à sua razão tão perfeitamente que não podiam agir ou sofrer nada exceto o que a razão lhes designava. Assim como foi dito acima (11:33): "ficou profundamente emocionado e perturbado a si mesmo"; "Tu agitaste a terra", isto é, a natureza humana, "e a perturbaste" (Sl 59:4). E assim a alma de Cristo foi perturbada de tal forma que sua perturbação não era oposta à razão, mas de acordo com a ordem da razão. Quanto ao segundo ponto, note que Cristo quis ser perturbado por duas razões. Primeiro, para nos mostrar uma doutrina da fé, isto é, a verdade de sua natureza humana. Acordemente, quando sua paixão estava próxima, ele fez tudo de uma forma humana. Em segundo lugar, ele quis ser um exemplo para nós. Pois se ele tivesse permanecido impassível e não tivesse sentido nenhuma emoção em sua alma, ele não teria sido um exemplo satisfatório de como devemos enfrentar a morte. E assim ele quis ser perturbado para que quando somos perturbados pela perspectiva da morte, não nos recusemos a suportá-la, não fugiremos: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, mas um que em tudo foi tentado como nós, porém sem pecado" (Hb 4:15). A relação disto com o que veio antes é clara. Ele encorajou seus discípulos a sofrer quando disse: "Quem odiar sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna." Mas alguém poderia dizer a ele: "Senhor, você pode calmamente discutir e filosofar sobre a morte porque você está acima de tristezas humanas, e a morte não o perturba." Foi para responder a isto que ele quis ser perturbado. Esta perturbação em Cristo era natural: pois assim como a alma naturalmente ama a união com seu corpo, assim naturalmente se encolhe da separação dele, especialmente porque a razão de Cristo permitiu à sua alma e seus poderes inferiores agir de sua própria forma apropriada. Novamente, quando ele disse, Agora minha alma está perturbada, ele refutou o erro de Ário e Apolinar. Pois eles diziam que Cristo não tinha uma alma, e no lugar de sua alma substituíram a Palavra. Depois nosso Senhor faz sua petição por glória, dizendo, E que direi? Pai, salva-me desta hora. Aqui nosso Senhor toma sobre si as emoções de alguém que está perturbado. E agindo como alguém perturbado, ele faz quatro coisas em sua petição. Primeiro, ele faz uma pergunta, como se faz quando deliberando sobre o que é a ser feito; em segundo lugar, ele faz um pedido que surge de uma certa inclinação; em terceiro lugar, ele rejeita esta inclinação por uma razão particular; e em quarto lugar, ele faz outro pedido que surge de uma inclinação diferente. Ele faz esta pergunta como se estivesse em dúvida, porque é natural deliberar sobre o que fazer quando se está perplexo. Assim o Filósofo diz em sua Retórica que o medo leva uma pessoa a procurar conselho. Assim, depois de mencionar que está perturbado, Cristo imediatamente acrescenta, E que direi? É o mesmo que dizer: "O que devo fazer em minha perturbação." Algo parecido é encontrado no Salmo 55 (v 5): "Medo e tremor vieram sobre mim," e então segue, "Oh, se eu tivesse asas como uma pomba! Eu voaria e descansaria." Pois ambos os perplexos e emocionalmente perturbados são oprimidos e procuram ajuda para se aliviar. Ele faz seu pedido, que surge de uma certa inclinação, porque quando alguém está indeciso sobre o que fazer, deveria se voltar para Deus: "Não sabemos o que fazer, mas nossos olhos estão sobre ti" (2 Cr 20:12); "Levantei meus olhos para os montes de onde virá meu auxílio" (Sl 120:1). E assim, voltando-se para o Pai, ele diz, Pai salva-me, isto é, dos sofrimentos que me esperam na hora de minha paixão: "Salva-me, ó Deus! Pois as águas já me sobem à alma" (Sl 69:1). De acordo com Agostinho, o que nosso Senhor diz aqui - Agora minha alma está perturbada e Pai salva-me - é o mesmo que ele diz em Mateus (26:38): "Minha alma está profundamente triste, até a morte." Note que este pedido não é feito como se surgisse da inclinação da razão; em vez disto, a razão está falando como uma advogada da inclinação natural de não morrer. E assim neste pedido a razão está apontando o impulso de uma inclinação natural. Esta explicação resolve uma questão que é frequentemente levantada. Pois lemos: "E foi ouvido por sua reverência" (Hb 5:7); e ainda assim neste caso, Cristo não foi ouvido. A resposta para isto é que Cristo foi ouvido naqueles assuntos nos quais seu pedido veio da própria razão e que ele pretendia ser concedidos. Mas o pedido que ele fez aqui não veio da razão, nem era intencionado ser concedido, em vez disto, expressava uma inclinação natural. Assim Crisóstomo o lê como uma pergunta, isto é, como: E que direi? Deveria eu dizer, Pai salva-me desta hora? É o mesmo que dizer: "Não! Eu não direi isto." Ainda assim Cristo rejeita este pedido, que surgiu de uma inclinação do apetite natural, quando ele diz, Não, porque para isto vim a esta hora. É o mesmo que dizer: Não é justo que eu seja livre deste tempo de sofrimento, porque vim para sofrer; e não como compelido pela necessidade do destino ou forçado pela violência dos homens, mas voluntariamente me oferecendo: "Ele foi oferecido porque quis" (Is 53:7); "Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo" (Jo 10:18). — Comentário sobre João

João 12:28

Agora sua razão propõe seu próprio pedido quando ele diz, Pai, glorifica teu nome. Teu nome pode ser entendido de duas maneiras. Primeiro, pode significar o próprio Filho. Pois um nome (nomen) — que vem da palavra para conhecimento ou ser conhecido (notitia) — é como um sinal (notamen). Assim um nome é o que manifesta uma coisa. Agora o Filho manifesta o Pai: "Pai, eu manifestei teu nome" (17:6). Lemos sobre este nome: "Eis que o nome do Senhor vem de longe" (Is 30:27). Assim o significado é: Pai, glorifica teu nome, isto é, teu Filho: "E agora, Pai, glorifica-me em tua presença com a glória que eu tive contigo antes da fundação do mundo" (17:5). Ou, o nome do Senhor indica o conhecimento que os homens têm do Pai, então o significado é, Pai, glorifica teu nome, isto é, faze o que é para a glória de teu nome. Contudo vem à mesma coisa, porque quando o Filho é glorificado o nome do Pai é glorificado. Ele diz isto porque o Filho ia ser glorificado por sua paixão: "Fez-se obediente", ao Pai, "até a morte, morte de cruz. Por isso Deus o exaltou sobremaneira" (Fil 2:8). Ele está dizendo aqui efetivamente: Pelo desejo da natureza peço ser salvo, mas minha razão pede que teu nome seja glorificado, isto é, que o Filho sofra, porque era pela paixão de Cristo que os homens haviam de receber seu conhecimento de Deus e glorificá-lo. Pois antes da paixão Deus era conhecido apenas na Judeia, e seu nome era grande em Israel; mas depois da paixão, o nome de Deus foi glorificado até entre os Gentios. Então quando o Evangelista diz, Então uma voz veio do céu, a promessa da glória é dada. Primeiro, a voz prometendo glória é ouvida; em segundo lugar, a multidão expressa sua opinião (v 29); em terceiro, o significado da voz é explicado (v 30). Com respeito ao primeiro, ele diz, Então uma voz veio do céu. Esta é a voz de Deus o Pai. Era a mesma voz que foi ouvida quando Cristo foi batizado, "Este é meu Filho amado" (Mt 3:17), e em sua transfiguração (Mt 17:5). Embora cada voz deste tipo fosse formada pelo poder de toda a Trindade, esta foi especificamente formada para representar a pessoa do Pai; assim é referida como a voz do Pai. De maneira similar a pomba foi formada pela Trindade inteira para significar a pessoa do Espírito Santo. E novamente, o corpo de Cristo foi formado pela Trindade inteira, mas especificamente assumido pela pessoa da Palavra porque foi formado para ser unido a ele. Esta voz, então, faz duas coisas. Primeiro, ela revela o passado, ao dizer, eu a glorifiquei, isto é, eu vos gerei como glorioso desde toda a eternidade, porque o Filho é uma certa glória e esplendor do Pai: "Pois ela (Sabedoria) é reflexo da luz eterna, espelho imaculado da ação de Deus" (Sab 7:26); "Ele é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata de seu ser" (Hb 1:3). Ou, eu a glorifiquei em vosso nascimento, quando os anjos cantavam: "Glória a Deus nas alturas" (Lc 2:14) e nos milagres que o Pai realizou através dele. Em segundo lugar, a voz prediz o que há de vir: e a glorificarei de novo, na paixão, na qual Cristo triunfou sobre o diabo, e na ressurreição e ascensão, e na conversão de todo o mundo: "O Deus de Abraão e de Isaac e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou seu Filho Jesus" (At 3:13). — Comentário sobre João

João 12:29

A seguir, vemos a opinião da multidão, que ficava imaginando sobre a voz, A multidão que estava ali ouviu e disse. Nesta multidão, como em toda outra, alguns eram lentos e obtussos em compreender, e outros eram mais perspicazes; ainda assim todos eles falharam em identificar a voz. Aqueles que eram lentos e carnais apenas a ouviram como um som; então disseram que tinha trovejado. Todavia, não estavam inteiramente enganados, pois a voz do Senhor era trovão, tanto porque tinha um significado extraordinário, quanto porque continha coisas muito grandes: "Como é pequeno o sussurro que ouvimos dele! Mas o trovão de seu poder quem pode compreender?" (Jó 26:14); "A voz de teu trovão" (Sl 76:19). Aqueles que eram mais perspicazes perceberam que o som era uma voz, proferindo palavras e tendo um significado; então disseram que alguém estava falando. Mas porque pensavam que Cristo era meramente humano, erraram, atribuindo estas palavras a um anjo. Então disseram que, Um anjo lhe falou. Eles estavam sob o mesmo erro que o diabo, que pensava que Cristo precisava da ajuda dos anjos: assim ele disse: "Ele ordenará aos seus anjos que te guardem" (Mt 4:6). Mas ele não precisava ser guardado e ajudado pelos anjos; pelo contrário, ele é aquele que glorifica e guarda os anjos. — Comentário sobre João

João 12:30

A voz é explicada quando ele diz: Jesus respondeu. Primeiro ele explica a voz; em segundo lugar, menciona a resposta dada pelo povo (v 34); e em terceiro lugar, a resposta de nosso Senhor (v. 35). Ele faz duas coisas em relação à primeira: primeiro menciona o motivo da voz; e em segundo lugar, ele acrescenta o seu significado (v 31). Deve-se notar em relação ao primeiro que eles disseram: Um anjo falou com ele. Agora, um anjo fala revelando algo que beneficiará aquele a quem ele fala, como fica claro em Apocalipse (cap. 1) e em Ezequiel (cap. 1). E assim, para mostrar que ele não precisava dessa voz ou de qualquer revelação de um anjo, nosso Senhor diz: Esta voz veio por sua causa, não por minha causa, ou seja, não veio para me instruir. Pois esta voz não mencionou nada que ele não soubesse antes, porque “nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2:2), de modo que ele sabia tudo o que o Pai sabia. Mas veio para o seu bem, isto é, para a sua instrução. A partir disso podemos entender que muitas coisas relacionadas a Cristo foram, no plano de Deus, permitidas, não porque Cristo precisasse delas, mas por nossa causa: “Porque tudo o que foi escrito antigamente foi escrito para nossa instrução” (Rm 15:4). - Comentário sobre João

João 12:31

Ele diz, Agora é o juízo deste mundo, ele expõe o significado desta voz. Primeiro, ele menciona o juízo pelo qual seria glorificado; em segundo lugar, o efeito deste juízo; e em terceiro lugar, a maneira como será glorificado (v 32). Ele diz, Agora é o juízo deste mundo. Mas se isto é verdade, por que esperamos que nosso Senhor venha novamente para julgar? A resposta é que agora ele vem para julgar com um juízo de distinção ou discernimento, pelo qual ele discerne os seus dos que não são seus: "Para juízo vim a este mundo" (9:39). Isto é o que ele está falando quando diz, Agora é o juízo deste mundo. Mas virá novamente para julgar com o juízo de condenação, pelo qual não veio na primeira vez: "Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele" (3:17). Ou poderíamos dizer que há dois tipos de juízo. Um é aquele que condena o mundo; e isto não é referido aqui. O outro é o juízo que será em favor do mundo, enquanto o mundo é liberto da servidão ao diabo. É assim que o Salmo é entendido: "Ó Senhor! Julga os que me fazem mal; derrota os que comigo lutam" (Sl 34:1). Mas este juízo e o juízo de distinção são o mesmo, porque pelo próprio fato de que o juízo é em favor do mundo ao expulsar o diabo, os bons são distinguidos dos maus. O efeito deste juízo é a expulsão do diabo. Assim ele diz, agora será o príncipe deste mundo expulso, pelo poder da paixão de Cristo. Assim a paixão de Cristo é sua glorificação; e isto explica o que ele havia dito, Eu o glorificarei, enquanto o príncipe deste mundo será expulso, pois Cristo tem a vitória sobre o diabo por sua paixão. "O motivo pelo qual o Filho de Deus apareceu foi para destruir as obras do diabo" (1 Jo 3:8). Uma dificuldade surge aqui em três pontos. Primeiro, porque ele diz que o diabo é o príncipe deste mundo. Foi isto que levou os Maniqueus a chamá-lo de criador e senhor de tudo que era visível. A resposta é que o diabo é chamado príncipe deste mundo não por direito natural, mas por usurpação, enquanto as pessoas mundanas, rejeitando o verdadeiro Senhor, se submetem a ele: "O deus deste mundo cegou o entendimento dos descrentes" (2 Cor 4:4). Assim, ele é o príncipe deste mundo enquanto reina sobre aqueles que são mundanos, como Santo Agostinho diz, e estes estão espalhados por todo o mundo. Pois a palavra "mundo" às vezes é tomada em sentido pejorativo para significar aqueles que amam o mundo: "O mundo não o conheceu" (1:10). Porém às vezes é tomada em sentido positivo para indicar aqueles que são bons e vivem no mundo de tal forma que são cidadãos do céu: "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo" (2 Cor 5:19). A segunda dificuldade diz respeito ao fato de que se diz que o príncipe deste mundo foi expulso. Pois se ele tivesse verdadeiramente sido expulso, ele não nos tentaria mais agora como fazia antes; porém ele continua a nos tentar. Portanto, ele não foi expulso. Agostinho responde isto dizendo que embora o diabo possa tentar aqueles que deixaram de ser do mundo, ele não os tenta da mesma forma que fazia antes. Pois antes ele os tentava e reinava sobre eles de dentro, mas agora o faz apenas de fora. Pois enquanto os homens estão em pecado, ele os reina e os tenta de dentro: "Que o pecado não reine portanto em vossos corpos mortais, para vos obedecer a suas paixões" (Rm 6:12). E assim ele foi expulso porque o efeito do pecado no homem não é agora de dentro mas de fora. Terceiramente, há uma dificuldade pelo fato de que ele diz, agora será o príncipe deste mundo expulso. Pois parece seguir-se disso que ele não havia sido expulso antes da paixão de Cristo, e consequentemente, se ele é expulso apenas quando os homens são libertados do pecado, parece que Abraão, Isaac e outros homens do Antigo Testamento não foram libertados do pecado. A resposta, segundo Agostinho, é que antes da paixão de Cristo ele havia sido expulso de indivíduos, mas não do mundo, como deveria ser posteriormente. Pois o que anteriormente ocorria em apenas alguns homens, mas agora acontece em muitos judeus e gentios que se converteram a Cristo, é reconhecido ter sido realizado pela paixão de Cristo. Ou poderia ser dito que o diabo é expulso pelo fato de que os homens são libertados do pecado; mas antes da paixão de Cristo todos os justos haviam sido libertados do pecado, embora não inteiramente, porque ainda eram mantidos de entrar no reino. Neste respeito, portanto, o diabo tinha algum direito sobre eles que foi completamente tirado pela paixão de Cristo, quando a espada flamejante foi removida, quando Cristo disse ao homem: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23:43). — Comentário sobre João

João 12:32-33

A forma ou maneira desta paixão seria sendo levantado; assim ele diz, e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos os homens para mim. A respeito disto, Crisóstomo tem o seguinte exemplo: Se um tirano, acostumado a oprimir e a agir furiosamente contra seus súditos e a lançá-los em correntes, em sua loucura tratasse da mesma forma alguém que não era seu súdito e o lançasse na mesma prisão, então ele mereceria que mesmo seu domínio sobre os outros lhe fosse tirado. Isto é o que Cristo fez contra o diabo. Pois o diabo tinha alguns direitos sobre os homens por causa do pecado do primeiro pai; e assim em certo sentido podia justamente agir furiosamente contra eles. Mas já que ousou tentar as mesmas coisas com Cristo, sobre quem não tinha direito, assaltando-o naquele em que não tinha parte, como o tentador, era conveniente que fosse privado de seu domínio pela morte de Cristo. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todas as coisas para mim. Primeiro, ele descreve a maneira de sua morte; segundamente, o Evangelista a explica, dizendo, ele disse isto para mostrar por que morte ele era para morrer, pois morreria sendo levantado na madeira da cruz. Aqui devemos notar que há duas razões por que o Senhor desejou morrer a morte da cruz. Primeiro, porque é uma morte vergonhosa: "Deixai-nos condená-lo a uma morte vergonhosa" (Sb 2:20). Assim Agostinho diz: "O Senhor desejou morrer desta forma para que nem mesmo uma morte vergonhosa mantivesse uma pessoa longe da perfeição da justiça." Segundamente, porque tal morte envolve um levantamento; assim nosso Senhor diz, quando for levantado. Tal maneira de morte estava em harmonia com o fruto, a razão e o símbolo da paixão. Estava em harmonia com seu fruto, porque foi pela paixão que Cristo era para ser levantado, exaltado: "Tornou-se obediente até a morte, mesmo morte de cruz. Por isso Deus o exaltou altamente" (Fl 2:8). Assim o Salmista disse: "Sê exaltado, ó Senhor, em teu poder!" (Sl 2:8). Estava em harmonia com a razão para a paixão, e de duas formas: tanto com respeito aos homens como com respeito ao diabo. Com respeito aos homens, porque morreu por sua salvação. Pois eles tinham perecido, porque foram lançados para baixo e afundados em coisas terrenas: "eles fixaram seus olhos curvando-se para a terra" (Sl 16:11). Assim ele desejou morrer levantado para levantar nossos corações para as coisas celestes. Pois desta forma ele é nosso caminho para o céu. Com respeito aos diabos, era conveniente no sentido de que aqueles que exerceram seu principado e poder no ar foram pisados por ele enquanto estava levantado no ar. Finalmente, estava em harmonia com o símbolo, porque o Senhor ordenou que uma serpente de bronze fosse feita no deserto, como registrado em Números (21:9), e acima: "E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do homem há de ser levantado" (3:14). E assim levantado assim atrairei todas as coisas para mim, através do amor: "Eu vos amei com um amor eterno, portanto vos atraí, tenho piedade de vós" (Jr 31:3). Além disso, o amor de Deus pelos homens aparece mais claramente no fato de que ele se condescendeu em morrer por eles: "Deus demonstra seu amor por nós pelo fato de que Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores," como lemos em Romanos (5:8). Ao fazer isto, ele cumpriu o pedido da noiva: "Atrai-me após ti, e corramos para o aroma do teu perfume" (Ct 1:3). Aqui podemos notar que o Pai atrai e o Filho também atrai: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair" (6:44). Ele diz aqui, atrairei todas as coisas, para mostrar que a mesma ação pertence a ambos. E ele diz, todas as coisas, e não "todos os homens," porque nem todos os homens são atraídos para o Filho. Atrairei todas as coisas, isto é, o corpo e a alma; ou todos os tipos de homens, como gentios e judeus, servos e livres, homem e mulher; ou, todos os predestinados para a salvação. Finalmente, devemos notar que atrair todas as coisas para si é para Cristo expulsar o príncipe deste mundo, pois Cristo não tem comunhão com Belial, nem luz com trevas (2 Cor 6:15). — Comentário sobre João

João 12:34

Tendo mencionado a promessa de glorificação do Senhor e explicado a voz, o Evangelista agora descreve a dúvida que prevalecia entre a multidão. Primeiro, eles introduzem a autoridade da Lei; e segundo, eles levantam um problema baseado nela. Com relação à primeira o Evangelista diz, A multidão respondeu a ele, isto é, ao Senhor, que estava falando de sua morte, Nós ouvimos da lei, e a lei é tomada aqui por todo o Antigo Testamento, que o Cristo permanece para sempre. Isto pode ser deduzido de muitas passagens do Antigo Testamento, especialmente de Isaías (9:7): "Do aumento de seu governo e da paz não haverá fim"; e em Daniel (7:14): "Seu domínio é um domínio eterno, que não desaparecerá, e seu reino um que não será destruído." Tomando como base esta autoridade, eles formulam duas dúvidas: uma diz respeito a um fato, e a outra à pessoa. Quanto ao fato, eles dizem, Como você pode dizer que o Filho do homem deve ser elevado? Mas visto que Cristo não disse que "o Filho do homem deve ser elevado," mas "e eu, quando for elevado," por que os judeus dizem que "o Filho do homem" deve ser elevado? A resposta a isto é que os judeus agora estavam acostumados com as palavras de nosso Senhor; portanto, eles se lembravam que ele se chamava de Filho do homem. E então, quando ele disse, "E eu, quando for elevado," eles tomaram para significar, "Se o Filho do homem for elevado," como Agostinho diz. Ou, poderia se responder que embora Cristo não tivesse mencionado o Filho do homem aqui, ele tinha dito anteriormente: "O Filho do homem deve ser elevado" (3:14). Todavia, parece que sua declaração, O Filho do homem deve ser elevado, não é de forma alguma oposta à declaração de que o Cristo permanece para sempre. A resposta é que visto que nosso Senhor estava acostumado a falar com eles de forma figurada, eles entendiam muita coisa que era dita dessa forma. E assim também suspeitavam que quando nosso Senhor falava de ser elevado, ele se referia à morte na cruz: "Quando tiverdes elevado o Filho do homem, então sabereis," como lemos acima (8:28). Ou, poderia ser dito que eles entendiam dessa forma porque já tinham pensado em fazer exatamente aquilo. Assim não era a agudeza de sua compreensão que lhes dava esta interpretação dessas palavras, mas uma consciência de sua própria perversidade. Note sua perversidade, pois eles não dizem: "Nós ouvimos da lei que o Cristo não sofre," porque em muitos lugares da lei referência é feita a sua paixão e ressurreição: como "Como um cordeiro que é levado ao matadouro" (Is 53:7); "Adormeço, e durmo; acordo, porque o Senhor me sustém" (Sl 3:7). Mas pelo contrário, eles dizem, o Cristo permanece para sempre. A razão para isto é que a primeira não teria envolvido qualquer oposição, visto que nenhum obstáculo à imortalidade de Cristo surge do mero fato de seu sofrimento. Em outras palavras, como Crisóstomo diz, eles desejavam mostrar que ele não era o Cristo pela razão de que o Cristo permanece para sempre. Eles levantam uma questão concerning sua pessoa quando dizem, Quem é este Filho do homem? Eles perguntam isto porque diz em Daniel (7:13): "E eis que, com as nuvens do céu, vinha alguém semelhante ao Filho do homem, que se aproximava do Ancião de dias"; e por aquele Filho do homem eles compreendiam o Cristo. É como se dissessem: "Você diz que o Filho do homem deve ser elevado; todavia o Filho do homem, que nós tomamos para ser o Cristo, permanece para sempre. Então Quem é este Filho do homem? Se ele não permanece para sempre, nem é ele o Cristo." Nisto eles merecem ser repreendidos por sua falta de entendimento, porque ainda que tivessem visto e ouvido tantas coisas grandes, eles ainda tinha dúvidas sobre seu ser o Cristo: "Quem narra uma história a um tolo narra a um homem adormecido" (Sir 22:9). — Comentário sobre João

João 12:35

Então, quando ele diz, Jesus disse a eles, nosso Senhor resolve de alguma forma suas dúvidas. Primeiro, ele elogia o bem que eles tiveram; e em segundo lugar, encoraja-os a progredir; em terceiro lugar, ele explica sua admoestação (v. 36). Jesus disse-lhes: A luz está convosco por mais um pouco. Isto pode ser entendido de duas maneiras. De certa forma, segundo Agostinho, o “pouco” modifica a “luz”. Como se dissesse: “Há um pouco de luz em ti”, na medida em que vê que o Cristo permanece para sempre. Pois esta é uma verdade, e toda manifestação da verdade é uma luz infundida por Deus. No entanto, esta luz que está em ti é “pequena”, porque embora reconheças a eternidade de Cristo, não acreditas na sua morte e ressurreição. Isso mostra que você não tem uma fé perfeita. Assim, o que foi dito a Pedro aplica-se também a eles: “Ó homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus 14:31). É entendido de outra forma por Crisóstomo, no sentido de que a luz está com vocês por mais um pouco de tempo, ou seja, eu, que sou a luz. É o mesmo que dizer: Eu, a luz, estou entre vocês por um breve período: “Um pouco e não me vereis mais” (16,16). E então ele os exorta a progredir no bem. Primeiro, ele dá a sua exortação; em segundo lugar, ele mostra o perigo que os ameaça, a menos que façam progressos. Ele diz: Eu digo que você tem um pouco de luz, mas enquanto tiver, caminhe, ou seja, siga em frente e progrida, para que você entenda que o Cristo, além de sua eternidade, também morrerá e ressuscitará. Isto está de acordo com a primeira explicação dada acima. Ou, Caminhe enquanto você tem a luz, ou seja, enquanto eu estiver entre vocês, progrida e preocupe-se em me possuir de maneira a nunca me perder: “Bem-aventurados os povos, ó Senhor, que andam na luz do teu semblante” (Sl 89:15). E faça isso para que as trevas da incredulidade, da ignorância e da condenação eterna não tomem conta de você e o impeçam de ir mais longe. Pois uma pessoa é tomada pelas trevas quando está totalmente mergulhada na incredulidade; e assim seriam se acreditassem na eternidade do Cristo de modo a negar a humilhação de sua morte: “Um homem cujo caminho está escondido” (Jó 3:23); “Estamos envoltos em trevas” (Jó 37:19). O perigo que os ameaça, a menos que progridam, é mencionado quando ele diz: quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Pois a luz, seja exterior ou interior, dirige o homem. A luz exterior o direciona para os atos corporais externos, enquanto a luz interior direciona sua vontade. Quem, portanto, não anda na luz, não crê perfeitamente em Cristo, mas anda nas trevas, não sabe para onde vai, isto é, para que fim está sendo conduzido. Como lemos no Salmo (82:5): “Eles não têm conhecimento nem entendimento, andam nas trevas”. Foi isso que aconteceu com os judeus porque eles não sabiam o que estavam fazendo, mas como pessoas que caminhavam nas trevas pensavam que estavam no caminho certo. E assim eles desagradaram a Deus exatamente nas coisas em que acreditavam que o agradavam. Da mesma forma, nas mesmas coisas em que os hereges errantes acreditam que merecem a luz da verdade e a graça é a fonte de serem privados dela: “Há um caminho que parece direito ao homem, mas o seu fim é o caminho da morte” (Pv 14:12). - Comentário sobre João

João 12:36

Então quando ele diz, Enquanto tendes a luz, crede na luz, ele explica o que disse, a saber, o que significa caminhar. Isto é explicado de dois modos, de acordo com as duas explicações dadas acima. De acordo com a primeira explicação: Enquanto tendes a luz, isto é, enquanto tendes algum conhecimento e luz da verdade, crede na luz, isto é, na verdade completa, para que vos torneis filhos da luz, isto é, para que sejais renascidos na verdade: 'Não somos da noite nem das trevas. Portanto, não durjamos' (1 Ts 5:6). Ou, de acordo com a outra explicação: Enquanto tendes a luz, isto é, eu que sou a luz - 'Ele era a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem ao mundo' (1:9) - crede na luz, isto é, em mim. Em outras palavras, progride no conhecimento de mim, para que vos torneis filhos da luz, porque pelo fato de que credes em mim sereis filhos de Deus: 'Mas a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus' (1:12). Quando Jesus teve dito isto, afastou-se e ocultou-se deles. Aqui o Evangelista diz o que Jesus fez, que se ocultou. Quando lemos acima (8:59) que Cristo fez esta mesma coisa, a razão era óbvia, pois estavam pegando em pedras para lançar contra ele. Mas aqui não há razão dada para seu ocultamento, como que pegassem em pedras ou que o blasfemassem contra ele. Por que então ele se ocultou? A resposta é que nosso Senhor, vendo em seus corações, conhecia sua ira e o mal que tinham planejado, isto é, matá-lo. E assim em seu desejo de detê-los, ele não esperou que agissem, mas se ocultou para que sua ira e inveja diminuíssem. Ao fazer isto ele é um exemplo para nós de que quando os propósitos malignos de outros nos são claros, devemos fugir antes que possam realizá-los. Além disso, nosso Senhor estava mostrando por suas ações o que havia dito por suas palavras. Pois ele acabava de dizer, Caminhai enquanto tendes a luz, para que não vos alcance a escuridão. E ao se ocultar, ele indicou que tipo de escuridão significa: 'Eu aguardarei o Senhor, que está escondendo seu rosto da casa de Jacó' (Is 8:17). — Comentário sobre João

João 12:37

Acima, o evangelista deu muitos exemplos da glória de Cristo, pelos quais os judeus procuraram matá-lo por inveja. Agora ele trata de outra das ocasiões que cercaram sua paixão, isto é, a incredulidade dos judeus. Primeiro, a sua incredulidade é discutida; em segundo lugar, é reprovado por nosso Senhor (v 44). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, ele reprova a incredulidade daqueles que não criam; em segundo lugar, a incredulidade daqueles que acreditaram, mas em segredo (v 42). Quanto ao primeiro, duas coisas são feitas: primeiro, ele menciona a estranha dureza da sua incredulidade; em segundo lugar, para mostrar que isso não aconteceu sem razão ou por acaso, ele menciona uma profecia (v 38). O evangelista, como se não conseguisse explicar, diz que nosso Senhor fez muitos milagres: como transformar água em vinho, curar um paralítico, dar visão a um cego e ressuscitar um morto: no entanto, embora ele tivesse feito tantos sinais diante deles, ainda assim eles não acreditaram nele. Eles geralmente diziam: “Que sinal você faz para que possamos ver e acreditar em você?” (6:30). Mas agora! O Evangelista diz: embora tivesse feito tantos sinais diante deles, eles não acreditaram nele. “Se eu não tivesse feito entre eles obras que ninguém mais fez, não teriam pecado” (15:24). E por isso não podiam dizer: “Não vemos os nossos sinais” (Sl 74:9). - Comentário sobre João

João 12:38

Depois, o testemunho do profeta neste ponto é citado. Primeiro, as profecias são mencionadas; em segundo lugar, mostra-se que elas se referem a Cristo (v 41). Ele faz duas coisas acerca do primeiro: ele cita a profecia que predisse sua incredulidade; em segundo lugar, ele adiciona a profecia que predisse a razão de sua incredulidade (v 39). Ele diz: Digo que não creram nele, para que se cumprisse a palavra dita pelo profeta Isaías. Aqui devemos notar que na Sagrada Escritura a palavra "para que" às vezes indica uma causa, como em "Eu vim para que tenham luz" (10:10). Mas outras vezes indica apenas uma sequência de eventos, e significa um evento futuro; e é assim que é usada aqui. Estas pessoas não creram, mas não foi porque Isaías predisse isto. Antes, Isaías predisse isto porque eles não iam acreditar. E assim esta sentença de Isaías se cumpre pelo fato de que eles não creram. "Tudo quanto está escrito a meu respeito na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos deve cumprir-se" (Lc 24:44); "Nem um iota, nem um til deixará de cumprir-se da lei, até que tudo se complete" (Mt 5:18). Mas se era necessário que a sentença de Isaías se cumprisse, parece que os judeus deveriam ser desculpados por não acreditarem, pois não poderiam agir contra a profecia. Eu respondo que a profecia levou em conta sua liberdade. Pois Deus, conhecendo o futuro de antemão, predisse sua incredulidade na profecia, mas não a causou; pois Deus não força alguém a pecar apenas porque já conhece seus pecados futuros. E assim nosso Senhor, a quem nada está oculto, predisse que os judeus cometeriam o pecado que cometeram. Agora o Evangelista expõe o que o profeta disse, Senhor, quem acreditou em nossa mensagem? e a quem se revelou o braço do Senhor? Aqui devemos notar que a crença vem de duas maneiras. Às vezes por instrução de outro; e esta é a maneira usual: "De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo" (Rm 10:17). Às vezes vem por revelação divina; e esta é a maneira especial, falada pelo Apóstolo: "Pois não a recebi de homem algum, nem aprendi, mas por revelação de Jesus Cristo" (Gl 1:12). Isaías predisse que haveria poucos crentes. Primeiro, quanto àqueles que acreditariam na maneira usual, por instrução, ele diz, Senhor, quem acreditou em nossa mensagem? Isto pode ser compreendido de duas maneiras. De uma forma, o significado é: quem acreditou em nossa mensagem? Isto é, o que vós nos relatardes, o que ouvimos de vós. "Ouvimos notícias do Senhor" (Ob 1:1); "Ouçamos o que falar o Senhor" (Sl 85:8). É como se dissessem: "Senhor, ouvimos estas coisas de vós. Mas quem nos acreditará quando lhes contarmos o que ouvimos de vós acerca de vosso nascimento e paixão?" Este capítulo inteiro de Isaías (cap. 53) fala destas coisas. Diz-se que os profetas ouvem a fim de sugerir a maneira pela qual os profetas são instruídos. Pela vista, uma pessoa recebe um conhecimento imediato da coisa vista, mas pelo ouvir ela não tem um conhecimento imediato do que ouve, mas ela ganha seu conhecimento de certos sinais da coisa. E assim, porque os profetas não viam imediatamente a essência divina, mas apenas certos sinais de realidades divinas, eles são ditos ouvir. "Se há profeta entre vós, eu, o Senhor, me faço conhecido a ele em visão, falo com ele em sonho," por certos sinais (Nm 12:6). O Filho, porém, eternamente vê a essência divina mesma: "Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o fez conhecer," como foi dito acima (1:18). Quem acreditou em nossa mensagem? Isto é, quem acreditou nas coisas que ouvimos e pregamos? "O que ouvi do Senhor dos Exércitos, do Deus de Israel, vos anuncio" (Is 21:10). A segunda maneira de compreender quem acreditou em nossa mensagem? é tomá-la como significando as coisas que nos relatamos, o que eles ouvem de nós. "Ouvem o que vós dizeis mas não o fazem" como Ezequiel (33:31) diz. Quanto à maneira especial pela qual a fé vem, por revelação, ele diz, e a quem se revelou o braço do Senhor? O "braço" refere-se ao Filho, pelo qual o Pai faz todas as coisas, assim como executamos coisas através de nosso braço. E se executássemos coisas somente através de uma palavra interior, então esta palavra seria chamada nosso braço. E assim o Filho é chamado o braço de Deus não porque Deus o Pai tem forma humana e um braço físico, mas porque "todas as coisas foram feitas por ele," o Filho (1:3). "Tens tu um braço como o de Deus? Podes tu trovoejar com uma voz como a dele?" (Jó 40:9); "Mostrou força com seu braço" (Lc 1:51). Aqui devemos notar que Sabélio não compreendeu bem esta passagem e disse que o Pai e o Filho são a mesma pessoa; e Ário também fez quando disse que o Filho é inferior ao Pai. As razões para isto foram que uma pessoa e seu braço não formam duas pessoas, mas apenas uma, e um braço não é igual à pessoa. A resposta para isto é que em expressões deste tipo as similaridades não são verdadeiramente adequadas, pois o que encontramos nas criaturas não representa perfeitamente o que está em Deus. Assim, Dionísio diz que a teologia simbólica não é argumentativa. Portanto, o Filho não é chamado braço como se fosse a mesma pessoa que o Pai ou inferior ao Pai, mas porque o Pai faz todas as coisas através dele. Quando diz, e a quem se revelou o braço do Senhor? é como dizer, apenas a poucos, isto é, aos apóstolos: "Deus nos revelou isto através do Espírito" (1 Cor 2:10). — Comentário sobre João

João 12:39

Quando o Evangelista diz, por isso não podiam crer, ele declara a profecia que predisse a razão de sua descrença. Se examinamos estas palavras do Evangelista, elas parecem, se tomadas em seu sentido superficial, difíceis de entender. Primeiro, porque se se diz que por isso não podiam crer, porque Isaías disse isto, os judeus parecem ser desculpáveis. Pois é pecado para uma pessoa não fazer o que ela não pode fazer? E o que é mais grave, a culpa será lançada sobre Deus, visto que ele cegou seus olhos. Isto poderia ser aceito se fosse dito do diabo, como em 2 Coríntios (4:4): "O deus deste mundo cegou as mentes dos infiéis." Mas aqui é dito de nosso Senhor, pois Isaías (6:1) diz: "Vi o Senhor sentado em um trono alto e elevado," e segue com "Cegai o coração deste povo e fazei pesados seus ouvidos, e fechai seus olhos, para que não vejam com seus olhos e ouçam com seus ouvidos e entendam com seu coração e se convertam e eu os cure" (Is 6:10). Para esclarecer isto, primeiro expliquemos o dito, por isso não podiam crer. Aqui devemos notar que algo se diz ser impossível ou necessário de duas formas: absolutamente, e sob certa pressuposição. Por exemplo, é absolutamente impossível para um ser humano ser um burro; mas sob certa pressuposição, é impossível para mim estar fora de minha casa, pressupondo, isto é, que eu permaneça dentro dela sentado. Com isto em mente, podemos dizer que uma pessoa é desculpada se não faz coisas que são absolutamente impossíveis para ela. Mas ela não é desculpada se não faz coisas que são impossíveis para ela sob certa pressuposição. Portanto, se alguém tem a intenção maligna de sempre roubar, e diz que é impossível para ele não pecar enquanto continuar com tal intenção, ele não é desculpado: pois esta impossibilidade não é absoluta, mas baseada em certa pressuposição, pois ele pode abandonar sua intenção maligna. Portanto ele diz, por isso não podiam crer, isto é, porque tinham uma vontade obscurecida por sua maldade: "Pode o etíope mudar sua pele ou o leopardo suas manchas? Então também vós podeis fazer coisas boas quando estais acostumados a fazer o mal" (Jr 13:23); "Como podeis fazer coisas boas quando sois maus?" (Mt 12:34). É como dizer: "Eu de forma alguma posso amá-lo, porque o odeio." Quanto ao segundo ponto, quando lemos que Deus cega e endurece, não devemos pensar que Deus coloca malícia em nós ou nos força a pecar; mas devemos entender como significando que Deus não infunde graça. Ora, ele infunde graça por causa de sua misericórdia, enquanto a causa de sua não infusão de graça é devida a nós, na medida em que há algo em nós que se opõe à graça divina. Quanto a ele: "Ele ilumina todo homem que vem a este mundo" (1:9); "Ele deseja que todos os homens se salvem" (1 Tm 2:4). Mas porque nos afastamos de Deus, ele tira sua graça de nós: "Porque rejeitastes o conhecimento, eu vos rejeito" (Os 4:6), "Sua perdição, ó Israel, vem de você; sua ajuda está apenas em mim" (Os 13:9). É como uma pessoa que fecha os postigos de sua casa, e alguém lhe diz: "Você não pode ver porque lhe falta a luz do sol." Isto não seria devida a uma falha do sol, mas porque ele fechou a luz do sol. Do mesmo modo lemos aqui que não podiam crer, porque Deus os cegou, isto é, eles foram a causa pela qual foram privados da vista, como em "Sua maldade os cegou" (Sb 2:21). — Comentário sobre João

João 12:40

Com estas distinções em mente, consideremos as palavras desta profecia. É encontrada em Isaías (6:10), não exatamente com estas palavras, mas com o mesmo significado. Três coisas são mencionadas aqui: primeiro, o endurecimento e a cegueira dos judeus; em segundo lugar, o efeito de cada um deles; em terceiro lugar, o seu fim. Em relação ao primeiro, observe que nosso Senhor trouxe as pessoas à fé de duas maneiras, por meio de seus milagres e de seus ensinamentos. E então ele os repreende em ambos os pontos: “Se eu não tivesse feito entre eles obras que ninguém mais fez, não teriam pecado” (15:24); e novamente em (15:22): “Se eu não tivesse vindo e falado com eles, eles não teriam pecado; mas agora eles não têm desculpa para o seu pecado”. Pois eles ridicularizaram ambos. Na medida em que não deram a devida atenção aos milagres de Cristo, diz ele, Ele cegou-lhes os olhos, isto é, os olhos dos seus corações, sobre os quais lemos: «Tendo iluminados os olhos dos vossos corações» (Ef 1,18). Pois deveriam ter entendido que tais milagres só poderiam ser feitos pelo poder divino: “Vês muitas coisas, mas não as observas” (Is 42,20); e novamente: "Quem é cego senão meu servo? Ou surdo, exceto aquele a quem enviei meus mensageiros?" (Is 42:19). Porque eles não foram movidos pelo ensino de Cristo, acrescenta, e endureceram o coração. É muito duro aquilo que não é derretido pelo calor intenso nem quebrado pelos golpes divinos. Agora as palavras de Cristo são “como fogo e como um martelo que despedaça a rocha” (Jeremias 23:29). Fogo, de fato, porque eles inflamam através do amor; e como um martelo porque aterrorizam quando ameaçam e quebram pela revelação da verdade. E ainda assim os corações dos judeus não prestaram atenção às palavras de Cristo. Assim, é óbvio que eles estavam endurecidos: “Seu coração é duro como uma pedra” (Jó 41:24); “Ele tem misericórdia de quem quer e endurece o coração de quem quer” (Rm 9:18). O efeito de ficarem cegos é mencionado quando ele diz, para que não vejam com os olhos, isto é, com os olhos espirituais, e percebam a divindade de Cristo: “Eles têm olhos, mas não vêem” (Sl 115:5). Em contraste, Lucas diz: “Bem-aventurados os olhos que vêem o que vocês veem!” (Lc 10:23). O efeito de se tornarem duros de coração é mencionado quando ele diz, para que não percebam, entendam, com o coração: “Como ninguém entende, perecerão para sempre” (Jó 4:20); “Ele não entendia para poder agir bem” (Sl 35:4). Aqui deve ser notado que quando ele diz, “para que não vejam com os olhos e percebam com o coração”, isto é, “para que não vejam com os olhos e percebam com o coração”, o “aquilo” não indica uma causa, mas apenas a sequência de eventos. O fim de se tornarem cegos e duros de coração é dado quando ele diz, e volte-se para mim para curá-los. Isto pode ser entendido de duas maneiras, como diz Agostinho em sua obra Sobre as Questões do Evangelho. De certa forma, para que ambas as partes sejam negativas, e então o significado seria: “e eles não se voltam para mim e eu não os curo”. Pois o caminho para a salvação do pecado é voltar-se para Deus: "Restaura-nos a ti mesmo, ó Senhor, para que sejamos restaurados! Renova os nossos dias antigos!" (Lam 5:21). Mas para aqueles que se mostram indignos de ter os seus pecados perdoados, Deus não oferece os dons pelos quais eles possam voltar-se para ele e serem curados, como é óbvio no caso dos não escolhidos. A outra interpretação é considerar apenas a primeira parte como negativa e então o significado seria: eles estavam cegos e endurecidos para que não pudessem ver ou entender por um tempo, e assim não vendo ou entendendo, isto é, não acreditando em Cristo, eles o matariam, mas depois se arrependeriam e se voltariam para Deus e seriam curados. Pois de vez em quando Deus permite que caiamos no pecado para que, sendo humilhados, possamos nos levantar mais firmes na santidade. Cada uma destas interpretações verifica-se no caso de alguns judeus: a primeira naqueles que persistiram até ao fim na sua incredulidade, e a segunda naqueles que se voltaram para Cristo depois da sua paixão, nomeadamente, aqueles que tinham remorso no coração pelas palavras de Pedro, e que disseram aos apóstolos: “Irmãos, que faremos?” como lemos em Atos (2:37). - Comentário sobre João

João 12:41

Então o Evangelista mostra que estas palavras de Isaías se aplicam aqui. Ele diz: Isaías disse isso porque viu a sua glória, a glória de Deus. Pois quando ele viu a glória de Deus, ele viu ao mesmo tempo que os judeus seriam cegos, como fica claro em: "Eu vi o Senhor sentado num trono alto e sublime" (Is 6:1), seguido por: "Cega o coração deste povo e faz-lhes pesados ​​os ouvidos, e fecha-lhes os olhos, para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os cure" (Is 6:10). E porque convém que alguém dê testemunho do que viu - como lemos em 1 João (1,1) - acrescenta, e falou dele, isto é, de Cristo, cuja glória viu: “Dele todos os profetas dão testemunho” (Atos 10:43); “O qual ele prometeu de antemão por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, o evangelho de seu Filho” (Rm 1:2). Lemos que Isaías viu e disse essas coisas. Quanto ao primeiro, devemos evitar o erro dos arianos, que dizem que só o Pai é invisível para toda criatura, mas que o Filho foi visto nas visões do Antigo Testamento. Mas como se afirma que “Quem me vê, vê o Pai” (14:9), é óbvio que o Pai e o Filho são visíveis da mesma maneira. E assim Isaías, vendo a glória do Filho, viu também a glória do Pai, e na verdade de toda a Trindade, que é um só Deus, sentado num trono alto, diante do qual os serafins clamam: Santo, Santo, Santo! Isto não significa que Isaías viu a essência da Trindade; antes, numa visão imaginária, com compreensão, ele expressou alguns sinais desta majestade, segundo o ditado de Números (12, 6): “Se entre vós há um profeta, eu, o Senhor, me dou a conhecer a ele em visão, falo com ele em sonho”. Quanto à segunda coisa, que Isaías falou dele: isto exclui o erro dos maniqueístas, que diziam que não havia profecias sobre Cristo no Antigo Testamento, como nos relata Agostinho em seu livro Contra Fausto; e exclui o erro de Teodoro de Mopsuéstia, que disse que todas as profecias do Antigo Testamento se referiam a algum evento atual, mas os apóstolos e evangelistas as apropriaram à vida de Cristo, como coisas ditas sobre um evento podem ser apropriadas a outro evento. Mas tudo isso é excluído pela declaração, e falou dele, assim como Cristo disse de Moisés que “ele escreveu de mim” (5:46). - Comentário sobre João

João 12:42

Acima, o Evangelista descreveu a falha daqueles que não acreditavam em nada; aqui ele explica a falha daqueles que acreditavam em segredo, porque eram tímidos e medrosos. Primeiro, ele menciona a sua dignidade; em segundo lugar, o seu fracasso; e em terceiro lugar, ele sugere a raiz desta falha (v. 43). A dignidade daqueles que acreditavam em segredo era grande, pois eram as autoridades, e neste ponto, diz ele, muitas até das autoridades acreditaram nele. Ele está dizendo com efeito: eu disse que embora Jesus tivesse feito tantos sinais, ainda assim eles não acreditaram nele; e embora isso fosse verdade para a maioria, ainda assim houve alguns que acreditaram nele, porque muitas até mesmo das autoridades, do povo, acreditaram nele. Um deles foi Nicodemos, que veio a Jesus à noite, como foi dito (c 3). Assim se cumpriram as palavras do Salmo (47,9): “Os príncipes dos povos reúnem-se como seu povo do Deus de Abraão”; e a afirmação dos fariseus provou ser falsa: "Alguma das autoridades ou dos fariseus acreditou nele?" (7:48). A falha destas autoridades é a timidez, a covardia; assim ele diz, mas por medo dos fariseus eles não o confessaram. Pois, como foi dito acima, os fariseus “concordaram que, se alguém confessasse ser o Cristo, seria expulso da sinagoga” (9:22). Assim, embora cressem de coração, não o professaram com os lábios. A fé deles, portanto, era insuficiente, pois como é dito em Romanos (10:10): “Porque o homem crê com o coração e assim é justificado, e confessa com os lábios e assim é salvo”. “Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do homem” (Lc 9,26). - Comentário sobre João

João 12:43

A raiz de seu fracasso é a vaidade, a vainglória; assim ele diz, pois amavam a glória dos homens mais que a glória de Deus. Ao confessarem Cristo publicamente teriam perdido a glória dos homens, mas ganhado a glória de Deus. Mas preferiram ser privados da glória de Deus a da glória dos homens: "Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?" (5:44). "Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo" (Gl 1:10). — Comentário sobre João

João 12:44

Agora ele mostra como Cristo repreendeu os judeus pela sua incredulidade: primeiro, ele mostra o seu dever de acreditar; em segundo lugar, menciona o fruto da fé (v 46); em terceiro lugar, ele adverte os incrédulos sobre o castigo (v. 47). Mas porque a visão vem depois da fé, no que diz respeito à primeira, ele trata da fé; e em segundo lugar, da visão (v 45). Quanto ao primeiro ele diz: E Jesus clamou, tanto pela importância do que pretendia dizer como por causa do seu livre arbítrio, para acusá-los dos seus pecados: “Clama em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como uma trombeta; declara ao meu povo a sua transgressão” (Is 58:1), e disse: Quem crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou. Isto parece conter uma contradição, pois ele diz que quem acredita em mim não acredita em mim. Para compreender isto devemos notar primeiro, de acordo com Agostinho, que nosso Senhor disse isto para distinguir a sua natureza divina e humana. Pois como o objeto próprio da fé é Deus, podemos de fato acreditar que existe uma criatura, mas não deveríamos acreditar numa criatura, mas somente em Deus. Agora, em Cristo existe uma natureza criada e uma natureza incriada. Portanto, a verdade da fé exige que a nossa fé esteja em Cristo como tendo uma natureza incriada. E assim diz, quem acredita em mim, isto é, na minha pessoa, acredita não em mim, como ser humano, mas naquele que me enviou, ou seja, acredita em mim como enviado do Pai: “O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou” (7:16). De acordo com Crisóstomo, porém, nosso Senhor diz isso para sugerir sua origem. É uma forma de falar semelhante a uma pessoa que tira água de um riacho e diz que essa água não é do riacho, mas da nascente: pois ela não se origina do riacho. Assim diz nosso Senhor: quem crê em mim não crê em mim, mas naquele que me enviou, como se dissesse: não sou a fonte de mim mesmo, mas a minha divindade vem de outro, isto é, de meu Pai. Portanto, quem crê em mim não crê em mim, exceto na medida em que venho do Pai. - Comentário sobre João

João 12:45

Depois, quando diz: e quem me vê vê aquele que me enviou, ele trata da visão. A respeito disto devemos observar que assim como o Pai enviou o Filho para converter os judeus, assim também Cristo enviou seus discípulos: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio" (20:21). Mas nenhum dos discípulos ousaria dizer, nem deveria, que alguém deve crer nele, ainda que pudesse dizer que alguém deveria acreditar nele. Pois isto não poderia ocorrer sem prejudicar aquele que o enviou, porque se alguém acreditasse no discípulo, deixaria de acreditar no mestre. Assim, os judeus poderiam dizer na mesma base que, já que foste enviado do Pai, quem crê em ti deixa de crer no Pai. Portanto, nosso Senhor mostra contra isto que quem não crê nele não crê no Pai. Este é seu significado quando diz: quem me vê vê aquele que me enviou. A visão que é referida aqui não é uma visão física, mas uma consideração da verdade pela mente. E a razão pela qual quem vê o Filho também vê o Pai é que o Pai está no Filho por uma unidade de essência. Pois uma coisa é dita ser vista em outra ou porque são o mesmo, ou porque são totalmente conformes. Mas o Pai e o Filho são o mesmo em natureza e totalmente conformes: porque o Filho é a imagem do Pai e em nada desigual, pois "ele é a imagem do Deus invisível" (Cl 1:15); "ele reflete a glória de Deus e traz a marca exata de sua natureza" (Hb 1:3). E assim, assim como alguém crê no Pai, assim também crê em mim: "Quem me viu, viu o Pai. Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?" (14:9). É como se dissesse: A razão pela qual quem me vê também vê o Pai, é que o Pai está em mim e eu no Pai. Assim é claro qual deve ser a fé: a fé deve estar em Cristo, como Deus, assim como está no Pai. — Comentário sobre João

João 12:46

Depois ele mostra o fruto da fé. Primeiro, ele mostra seu próprio valor e poder quando diz: Vim como luz ao mundo. Já foi explicado como Cristo é uma luz: "Ele era a verdadeira luz, que ilumina a todo homem que vem ao mundo" (1:9), e "Eu sou a luz do mundo" (8:12). Ele também mostra por isto que tem a natureza divina. Pois ser luz é próprio de Deus; outros podem emitir luz, isto é participar da luz, mas Deus é luz por essência: "Deus é luz e nele não há trevas" (1 Jo 1:5). Mas porque ele "habita em luz inacessível, a qual nenhum homem viu" (1 Tm 6:16), não éramos capazes de aproximar-nos dele. E por isso era necessário que ele viesse para nós. Isto é o que ele diz: Vim como luz ao mundo, isto é, sou a luz inacessível que nos resgata do erro e dispersa a escuridão intelectual: "Saí do Pai e vim ao mundo" (16:28); "Veio para o seu próprio" (1:11). E embora os apóstolos sejam chamados luz - "Vós sois a luz do mundo" (Mt 5:14) - eles não são luz da mesma forma que Cristo. Pois eles são uma luz cuja luz lhes foi dada, embora de alguma forma também iluminem, isto é, em seu ministério. Além disso, nenhum dos apóstolos poderia verdadeiramente dizer: Vim como luz ao mundo, porque quando vieram ao mundo ainda eram escuridão e não luz, pois em Jó (37:19) está dito: "Nós estamos envolvidos em escuridão." Em segundo lugar, ele continua: aquele que crê em mim não fica na escuridão. Para ser iluminado, portanto, é um efeito da fé: "Quem me segue não andará em trevas" (8:12). Não fica na escuridão: isto é, na escuridão da ignorância, da descrença e da condenação eterna. Isto mostra que todos nascem na escuridão do pecado: "Porque outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor", como lemos em Efésios (5:8). E na escuridão da ignorância: "Um homem cujo caminho está oculto, e Deus o cercou de escuridão" (Jó 3:23). E no fim, a menos que se voltem para Cristo, serão trazidos para a escuridão da condenação eterna. E assim, aquele que não crê em mim permanece na escuridão: "Quem não crê no Filho não verá a vida; mas a ira de Deus está sobre ele" (3:36). — Comentário sobre João

João 12:47

Depois ele revela a punição dos incrédulos, na qual eles incorrerão através da sua condenação no julgamento. Primeiro, ele afirma que o julgamento será adiado; segundo, que haverá um julgamento no futuro (v 48); e em terceiro lugar, ele mostra a causa do julgamento. Quanto ao primeiro ele diz: Se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo. Observe que os que devem ser felizes, beatificados, são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a guardam, acreditando nela dentro de seus corações e fazendo-a externamente em suas ações. Mas aqueles que a ouvem, mas não se preocupam em cumpri-la, tornam-se ainda mais culpados: “Porque não são os ouvintes da lei que são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei serão justificados” (Romanos 2:13); “Mas sejam cumpridores da palavra, e não apenas ouvintes” (Tg 1:22). E assim, se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar, eu não o julgo. Mas isto parece entrar em conflito com o que foi dito acima (5:22): “O Pai deu todo o julgamento ao Filho”. Portanto, devemos entender que não o julgo neste momento. Poderia ser considerado uma fraqueza nele se ele ignorasse aqueles que o desprezavam. E então ele diz que tais pessoas serão julgadas, embora não agora; pois lemos que “Deus trará todo ato a julgamento” (Ec 12:14), e “Fuja da face da iniqüidade, porque a espada é o vingador da iniqüidade: e saiba que há um julgamento” (Jó 19:29). Ele continua explicando o motivo da demora, dizendo que não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Agora o Filho de Deus vem duas vezes: uma vez ele vem como Salvador e na outra como juiz. Mas como todos estavam em pecado, se ele tivesse vindo pela primeira vez como juiz, não teria salvado ninguém, porque todos eram filhos da ira. E então foi apropriado que ele viesse primeiro para salvar os crentes e depois para julgar tanto os crentes quanto os pecadores. Isto é o que ele está dizendo: eu não julgo agora, pois não vim neste momento para julgar o mundo, mas para salvá-lo. “Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (3:17). - Comentário sobre João

João 12:48

Portanto, quando ele diz: 'quem me rejeita e não recebe minhas palavras tem um juiz', ele prediz o julgamento vindouro. É como dizer: Embora aqueles que não guardam minha palavra não sejam julgados agora, não ficarão impunes, quem quer que sejam, porque quem me rejeita e não recebe minhas palavras, acreditando nelas e agindo de acordo com elas, tem um juiz. A razão disto é que se alguém não recebe a palavra de Cristo, ele menospreza a palavra de Deus, cuja Palavra é Cristo, assim como aquele que não obedece o comando de seu mestre. 'Fugi da iniquidade; e sabei que há julgamento' (Jó 19:29); 'Porque Deus há de trazer a juízo toda obra' (Ec 12:14); 'Ai de vós que zombais. Não sereis vós também zombados?' (Is 33:1); 'Os que me desprezam serão desprezados' (1Sm 2:30). Portanto, quando ele diz: 'a palavra que tenho falado será seu juiz no último dia', ele atribui a causa do julgamento. E primeiro, ele menciona a causa do julgamento; em segundo lugar, a adequação desta causa (v 49). Ele diz: Eu digo que tal pessoa tem um que o julga. Mas quem será esse juiz? Ele diz: 'a palavra que tenho falado será seu juiz no último dia'. Segundo Agostinho, isto é o mesmo que dizer: Eu o julgaerei no último dia. Pois Cristo se revelou em seus ditos, anunciou a si mesmo. Ele, portanto, é a palavra que falou, porque falou sobre si mesmo: 'Ainda que eu dê testemunho de mim mesmo, meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para onde vou' (8:14). É como dizer: O que lhes tenho dito e que desprezaram os julgará: 'Este é o que foi ordenado por Deus para ser juiz dos vivos e dos mortos. Todos os profetas lhe dão testemunho' (At 10:42). — Comentário sobre João

João 12:49

Então ele mostra a suficiência desta causa, dizendo: pois não falei por minha própria autoridade. Então, primeiro ele mostra isso a partir da origem de suas palavras; em segundo lugar, pela sua dignidade ou valor (v 50). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, exclui uma noção falsa; em segundo lugar, ele afirma a verdade. A falsa noção, é claro, é que o Filho trabalha, ou diz, ou é, meramente de si mesmo, e não de outro: pois isso seria dizer que o Filho não vem do Pai, que é o que ele diz: eu digo que a palavra que falei os julgará, pois não falei de mim mesmo: “O Filho não pode fazer nada por si mesmo” (5:19); “Não falo de mim mesmo” (14:10). Na verdade, não falei de mim mesmo, é o mesmo que “não nasci de mim mesmo, mas do Pai”. Ele está dizendo, na verdade, eu o julgarei no último dia (aparecendo na forma de um servo): “Ele lhe deu poder para julgar, porque ele é o Filho do homem” (5:27). Contudo, não julgarei pela autoridade humana, isto é, porque sou o Filho do homem, mas pela autoridade divina, porque sou o Filho de Deus. Portanto, não julgarei por mim mesmo, mas pelo Pai de quem tenho autoridade para julgar. Ele estabelece a verdade quando diz: O próprio Pai que me enviou me deu mandamento sobre o que dizer e o que falar. A menos que isto seja adequadamente entendido, pode ser a fonte de dois erros. A primeira é que, visto que quem manda é maior que aquele que é ordenado, o Pai é maior que o Filho. Em segundo lugar, uma vez que o que é dado a alguém não era possuído por ele antes de ser dado, e portanto não era conhecido por ele, parece que se o Pai deu um mandamento ao Filho, segue-se que o Filho em algum momento não o teve, e portanto não o sabia. Como resultado, algo foi acrescentado ao Filho e, portanto, o Filho não é verdadeiramente Deus. Em resposta a isto, devemos notar que todos os mandamentos divinos estão na mente do Pai, uma vez que estes mandamentos nada mais são do que planos ou padrões de coisas a serem feitas. E assim como os padrões de todas as criaturas produzidas por Deus estão na mente do Pai e são chamados de ideias, os padrões de todas as coisas a serem feitas por nós estão em sua mente. E assim como os padrões de todas as coisas passam do Pai para o Filho, que é a Sabedoria do Pai, assim também os padrões de todas as coisas devem ser feitas. Portanto, diz o Filho, o Pai que me enviou me deu ele mesmo, como Deus, mandamento, isto é, por uma geração eterna ele me comunicou o que dizer dentro e o que falar fora, assim como o que dizemos (se falamos a verdade) dá a conhecer o que está em nossas mentes. - Comentário sobre João

João 12:50

Crisóstomo explica tudo isto de forma diferente, e mais clara. Acima de tudo: Se alguém ouve minhas palavras e não as guarda, eu não o julgue. Ora, diz-se que alguém é condenado de duas formas: ou por um juiz ou pela razão da condenação. Pois um assassino é condenado a ser enforcado tanto pelo juiz que passa sentença quanto pelo assassinato que cometeu, que é a razão de sua condenação. Ele diz, eu não o julgue, isto é, não sou a razão de sua condenação, mas ele mesmo é: "Tua perdição, ó Israel, vem de ti; teu auxílio só está em mim" (Os 13:9). E a razão é: pois não vim para julgar o mundo, isto é, não fui enviado para condenar mas para salvar. Mas será que tal pessoa será julgada? Certamente será, porque aquele que me rejeita e não recebe minhas palavras tem um juiz. Ele mostra qual é esse juiz quando diz, a palavra que eu falei, e vós ouvistes, será a sua acusadora e será o seu juiz no último dia. "Se eu não tivesse vindo e não tivesse falado com eles, não teriam pecado; mas agora não têm desculpa pelo seu pecado" (15:22). Ele mostra que a palavra que ele falou os julgará ao dizer, pois não falei de mim mesmo. Isto não é dito causalmente, mas materialmente, de forma que o significado é: Você diz que minha palavra os julgará. Mas qual é essa palavra? É a palavra que eu falei, pois não falei de mim mesmo; isto é, é a palavra do Pai que eu falei, e o que ele me deu para dizer e falar. De outro modo, se eu tivesse falado algo em oposição ao Pai, ou algo que não tivesse recebido do Pai, e eles tivessem acreditado em mim, teriam uma desculpa. Mas porque eu falei como o fiz, é certo que eles rejeitaram não apenas a mim, mas também a meu Pai. De acordo com esta explicação, a declaração, O Pai que me enviou, ele mesmo me deu mandamento sobre o que dizer e o que falar, mostra a suficiência da base do julgamento por causa da dignidade ou valor da palavra. Primeiro, sua dignidade é dada; segundo, o fato de que a palavra foi falada. Sua dignidade é afirmada quando ele diz, Eu sei que seu mandamento é vida eterna. "Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna" (1 Jo 5:20). Pois o Filho em si é o mandamento do Pai, ou, ele é a vida eterna. "Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos" (Mt 19:17). Portanto, porque o Pai me deu mandamento, e este mandamento é vida eterna, e visto que eu vim para levar os homens à vida eterna, eu cumpro o mandamento do Pai em tudo o que faço. Isto é o que ele está dizendo, O que eu falo, portanto, eu falo como o Pai me disse. De acordo com Crisóstomo, cuja explicação é clara, o significado é: o que eu falo, portanto, ao pregar publicamente, eu falo como o Pai me disse, isto é, na medida em que recebi conhecimento dele - entendendo-se que isto foi recebido por Cristo como homem. Mas se, com Agostinho, entendemos que isto se aplica a Cristo como Deus, como pode o Pai falar algo a ele, visto que Cristo é sua Palavra? A resposta é que o Pai não falou nada a ele como se lhe falasse por palavras à sua única Palavra. Ao contrário, o Pai falou ao Filho ao gerá-lo, e dando-lhe vida em si mesmo: "O Senhor me disse, 'Tu és meu filho'" (Sl 2:7). — Comentário sobre João