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João 10

Thomas Aquinas

João 10:1

Depois que nosso Senhor mostrou que seu ensinamento tinha poder para iluminar, ele aqui mostra que tem poder para dar vida. Primeiramente, ele mostra isto por palavra; segundamente, por um milagre (cap 11). Concernente ao primeiro ele faz três coisas. Primeiramente, ele mostra que tem poder para dar vida; segundamente, sua maneira de dar vida (v 11); terceiramente, ele explica seu poder para dar vida (v 19). A primeira parte é dividida em três partes. Primeiramente, nosso Senhor relata uma parábola; segundamente, o Evangelista menciona a necessidade de explicá-la (v 6); terceiramente, nosso Senhor explica a parábola (v 7). Ele relata a parábola a eles, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo. Ela diz respeito a duas coisas, um ladrão e o pastor das ovelhas. Assim ele faz três coisas. Primeiramente, ele menciona a marca de um ladrão e assaltante; segundamente, uma característica do pastor (v 2); terceiramente, o efeito que cada um destes tem (v 4). Para entender esta parábola devemos considerar quem são as ovelhas, a saber, que são os fiéis de Cristo e aqueles na graça de Deus: "Nós somos o seu povo e o rebanho do seu pasto" (Sl 95:7); "Vós, o meu povo, sois as ovelhas do meu pasto" (Ez 34:31). E assim o aprisco é a multidão dos fiéis: "Certamente vou reunir a ti, ó Jacó; vou trazer de volta os remanescentes de Israel; vou juntá-los como ovelhas em um curral" (Mq 2:12). A porta do aprisco é explicada de diferentes maneiras por Crisóstomo e por Agostinho. Segundo Crisóstomo, Cristo chama a Sagrada Escritura de porta, segundo "Orai também por nós, para que Deus abra uma porta à nossa palavra" (Cl 4:3). A Sagrada Escritura é chamada de porta, como Crisóstomo diz, primeiramente, porque por meio dela temos acesso ao conhecimento de Deus: "que ele prometeu previamente por seus profetas nas escrituras sagradas" (Rm 1:2). Segundamente, pois assim como a porta guarda as ovelhas, a Sagrada Escritura preserva a vida dos fiéis: "Vós esquadrinhastes as escrituras, porque pensais que nelas tendes a vida eterna" (5:39). Terceiramente, porque a porta impede o lobo de entrar; assim a Sagrada Escritura impede os hereges de prejudicarem os fiéis: "Toda escritura inspirada por Deus é também proveitosa para ensinar, para repreensão, para correção" (2 Tm 3:16). Então, aquele que não entra pela porta é aquele que não entra pela Sagrada Escritura para ensinar o povo. Nosso Senhor diz de tais pessoas: "Em vão me honram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens" (Mt 15:9); "Vós invalidastes a palavra de Deus" (Mt 15:6). Isto, portanto, é a marca do ladrão: ele não entra pela porta, mas de alguma outra forma. Ele acrescenta que o ladrão sobe, e isto é apropriado para esta parábola porque os ladrões sobem os muros, em vez de entrar pela porta, e caem no aprisco. Corresponde também à verdade, porque a razão pela qual alguns ensinam o que conflita com a Sagrada Escritura é a soberba: "Se alguém ensina diferentemente e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensinamento que é segundo a piedade, ele é puffado de soberba, não sabe nada" (1 Tm 6:3). Referindo-se a isto ele diz que tal pessoa sobe, isto é, pela soberba. Aquele que sobe de uma outra forma, esse tal é um ladrão, porque rouba o que não é seu, e um assaltante, porque mata o que rouba: "Se viessem ladrões a ti, se assaltantes de noite - como foste destruído" (Abd v 5). Segundo esta explicação, a relação com o que precedeu é feita desta forma: Como nosso Senhor tinha dito: "Se fôsseis cegos, não teríeis culpa", os judeus poderiam ter respondido: "Nós não te cremos, mas isto não é por nossa cegueira. É por erro teu que nos afastamos de ti." E assim nosso Senhor rejeita isto, e deseja mostrar que ele não está em erro porque entra pela porta, pela Sagrada Escritura, isto é, ele ensina o que está contido na Sagrada Escritura. Contra esta interpretação está o fato de que quando nosso Senhor explica isto mais adiante, ele diz: Eu sou a porta. Assim parece que devemos entender a porta como sendo Cristo. Em resposta a isto, Crisóstomo diz que nesta parábola nosso Senhor se refere a si mesmo tanto como a porta quanto como o pastor; mas isto é de diferentes pontos de vista, porque uma porta e um pastor são diferentes. Agora, à parte Cristo, nada é mais apropriadamente chamado de porta que a Sagrada Escritura, pelas razões dadas acima. Portanto, a Sagrada Escritura é apropriadamente chamada de porta. Segundo Agostinho, a porta é Cristo, porque se entra por meio dele: "Depois disto olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu" (Ap 4:1). Portanto, qualquer um que entre no aprisco deve entrar pela porta, isto é, por Cristo, e não por outro caminho. Note que tanto as ovelhas quanto seu pastor entram no aprisco: as ovelhas para estarem seguras lá, e o pastor para guardar as ovelhas. E assim, se desejas entrar como ovelha para ser mantida segura lá, ou como pastor para manter o povo seguro, deves entrar no aprisco por Cristo. Não deves entrar de nenhuma outra forma, como fizeram os filósofos que trataram das virtudes principais, e os fariseus que estabeleceram as tradições cerimoniais. Estes não são nem ovelhas nem pastores porque, como nosso Senhor diz, aquele que não entra no aprisco pela porta, isto é, não entra por Cristo, mas sobe de outra forma, esse tal é um ladrão e um assaltante, porque destrói tanto a si mesmo quanto aos outros. Pois Cristo e ninguém mais é a porta no aprisco, isto é, a multidão dos fiéis: "Portanto, tendo sido justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5:1); "não há em nenhum outro salvação, porque não há outro nome debaixo do céu, dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4:12). Segundo esta exposição, a conexão com o que precedeu é feita desta forma: Porque eles disseram que podiam ver sem Cristo - "agora que dizeis: Nós vemos" - nosso Senhor mostra que isto não é verdade, porque não entram pela porta. Assim ele diz: Na verdade, na verdade vos digo. Deve-se notar que assim como aquele que não entra pela porta como ovelha não pode ser mantido seguro, assim aquele que entra como pastor não pode guardar as ovelhas a menos que entre pela porta, a saber, por Cristo. Esta é a porta por meio da qual os verdadeiros pastores entraram: "E ninguém toma honra para si, senão o que é chamado por Deus, assim como também Arão" (Hb 5:4). Os pastores maus não entram pela porta, mas por ambição e poder secular e simonia; e estes são ladrões e assaltantes: "Eles constituem príncipes, mas sem meu conhecimento", isto é, sem minha aprovação (Os 8:5). Além disso, ele diz que tal pessoa sobe de outra forma, porque a porta, a saber, Cristo, já que é pequena pela humildade - "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11:29) - pode ser entrada apenas por aqueles que imitam a humildade de Cristo. Portanto, aqueles que não entram pela porta mas sobem de outra forma são os soberbos. Eles não o imitam que, embora fosse Deus, se tornou homem; e eles não reconhecem seu rebaixamento de si mesmo.

João 10:2

Agora ele considera o pastor. Primeiro, menciona a marca do pastor; segundo, mostra através de sinais que ele é o pastor (v 3). A marca do verdadeiro pastor é entrar pela porta, isto é, pelo testemunho da Escritura Sagrada. Assim Cristo disse: "Tudo que foi escrito sobre mim na Lei de Moisés e nos profetas e nos salmos deve ser cumprido" (Lc 24:44). É chamado um pastor: "Não estou incomodado quando te sigo como meu pastor" (Jr 17:16); "Ele repreende e treina e ensina, e os faz voltar, como um pastor seu rebanho" (Eclo 18:13). Mas se a porta é Cristo, como Agostinho a explica, então ao entrar pela porta, ele entra por si mesmo. E isto é especial a Cristo: pois ninguém pode entrar pela porta, isto é, à bem-aventurança, senão pela verdade, porque a bem-aventurança nada mais é que alegria na verdade. Mas Cristo, como Deus, é a verdade; portanto, como homem, ele entra por si mesmo, isto é, pela verdade, que ele é como Deus. Nós, porém, não somos a verdade, mas filhos da luz, participando na verdade criada. Consequentemente, temos que entrar pela verdade que é Cristo: "Santifica-os na verdade" (17:17); "Se alguém entrar por mim, ele será salvo" (10:9). Se alguém deseja entrar como um pastor, deve entrar pela porta, isto é, Cristo, de acordo com sua verdade, vontade e consentimento. Assim lemos em Ezequiel (24:23): "E estabelecerei sobre eles um pastor, meu servo Davi, e ele os apascentará." Isto é como dizer: Eles devem ser dados por mim, e não por outros ou por eles mesmos. — Comentário sobre João

João 10:3

Agora ele menciona os sinais de um bom pastor; e há três. A primeira diz respeito ao porteiro, e é que o bom pastor é por ele deixado entrar. Quanto a isso ele diz, para ele o porteiro abre. Este porteiro, segundo Crisóstomo, é aquele que abre o caminho para o conhecimento da Sagrada Escritura. O primeiro a fazer isso foi Moisés, o primeiro a receber e estabelecer a Sagrada Escritura. E Moisés se abriu para Cristo, porque como foi dito acima: “Se você acreditasse em Moisés, você acreditaria em mim, pois ele escreveu de mim” (5:46). Ou, segundo Agostinho, o porteiro é o próprio Cristo, porque ele mesmo nos traz. Ele diz: “Abre-se aquele que se revela, e nós entramos somente pela sua graça”. “Porque pela graça sois salvos” (Ef 2:8). Não importa se Cristo, que é a porta, é também o porteiro; pois certas coisas são compatíveis em questões espirituais que não podem ocorrer na realidade física. Agora parece haver uma diferença maior entre um pastor e uma porta do que entre uma porta e um porteiro. Portanto, visto que Cristo pode ser chamado de pastor e de porta, como foi dito, muito mais pode ser chamado de porta e de porteiro. Mas se você prefere que alguém que não seja Moisés ou Cristo seja o porteiro, então considere o Espírito Santo o porteiro, como diz Agostinho. Pois é função do porteiro abrir a porta, e abaixo diz do Espírito Santo que “Ele te guiará a toda a verdade” (16:13). E Cristo é a porta na medida em que é a Verdade. O segundo sinal diz respeito às ovelhas, e é que elas obedecem ao pastor. Isto é o que ele diz, as ovelhas ouvem a sua voz. Isto é razoável se for considerada a semelhança com um pastor natural: porque assim como as ovelhas reconhecem a voz do seu pastor devido à experiência familiar, assim os crentes justos ouvem a voz de Cristo: "Oh, que hoje ouçais a sua voz" (Sl 95:7). Mas e o fato de que muitos que são ovelhas de Cristo não ouviram sua voz, como Paulo; ou que alguns que não eram suas ovelhas ouviram isso, como Judas? Alguém poderia responder que Judas era a ovelha de Cristo naquela época quanto à sua justiça atual. E Paulo, quando não ouviu a voz de Cristo, não era ovelha, mas lobo; mas quando a voz de Cristo veio, ela transformou o lobo em ovelha. Esta resposta poderia ser aceita se não fosse contrária a uma afirmação de Ezequiel (34:4): “Os aleijados não ligaste, os desgarrados não restituíste”. Parece que mesmo quando estavam aleijados e desgarrados, eles eram ovelhas. Portanto, deve-se dizer que aqui nosso Senhor está falando de suas ovelhas não apenas de acordo com a sua justiça presente, mas até mesmo de acordo com a sua predestinação eterna. Pois existe uma certa voz de Cristo que somente os predestinados podem ouvir, ou seja, “Aquele que persevera até o fim” (Mateus 10:22). Mais uma vez, diz ele, as ovelhas ouvem a sua voz, porque podem oferecer como desculpa para a sua incredulidade o facto de não só elas, mas nenhum dos líderes ter acreditado nele. Então ele diz em resposta a isso, as ovelhas ouvem a sua voz, como se dissessem: Elas não acreditam porque não são minhas ovelhas. O terceiro sinal é tirado das ações do pastor. Aqui ele menciona quatro ações de um bom pastor: a primeira é que ele conhece as suas ovelhas. Ele diz que chama as suas ovelhas pelo nome, o que mostra o seu conhecimento e familiaridade com as suas ovelhas, pois chamamos pelo nome aqueles que conhecemos familiarmente: “Eu te conheço pelo nome” (Êx 33,17). Isto faz parte do ofício do pastor segundo: “Procura conhecer o semblante do teu rebanho” (Pv 27,23). Isto se aplica a Cristo segundo o seu conhecimento atual, mas ainda mais considerando a predestinação eterna, pela qual os conheceu pelo nome desde a eternidade: «Determinou o número das estrelas, deu-lhes o nome a todas elas» (Sl 147, 4); “O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2,19). A segunda ação de um bom pastor é conduzi-los para fora, isto é, separá-los da sociedade daqueles que são maus: “Ele os tirou das trevas e das trevas” (Sl 107,14). - Comentário sobre João

João 10:4

A terceira ação de um bom pastor é que, tendo-os separado do mal e tendo-os trazido para o aprisco, ele tirou todos os seus, do aprisco. Ele faz isso, primeiro, para a salvação dos outros: “Enviarei sobreviventes às nações” (Is 66,19); “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10,16), para que possam fazer dos lobos ovelhas. Em segundo lugar, devem indicar a direcção e o caminho para a vida eterna: «Guiar os nossos pés no caminho da paz» (Lc 1,79). Em quarto lugar, o bom pastor precede as suas ovelhas com o exemplo de uma vida boa; então ele diz, ele vai adiante deles, embora não seja isso que o pastor literal faz, pois ele segue, como em “Eu o tirei de seguir as ovelhas” (Sl 78:70). Mas o bom pastor vai adiante deles pelo exemplo, “não como dominador sobre os que estão sob seus cuidados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1Pd 5,3). E Cristo vai adiante deles: pois ele foi o primeiro a morrer pelo ensino da verdade – “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24); e ele foi antes de todos para a vida eterna - “Aquele que abre a brecha subirá diante deles” (Miqueias 2:13). Agora ele considera o efeito que tanto o ladrão como o pastor têm sobre as ovelhas. Primeiro, ele menciona o efeito do bom pastor; em segundo lugar, o efeito do lobo e do ladrão (v 5). Ele diz, primeiro, que as ovelhas seguem aquele que vai adiante delas. Isso é fácil de perceber, pois os sujeitos seguem os passos de seus líderes, como se afirma: “Cristo também sofreu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais os seus passos” (1Pe 2,21); “Meu pé segurou seus passos” (Jó 23:11). As ovelhas seguem porque conhecem a sua voz, ou seja, conhecem-na e deleitam-se nela: “Deixa-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce” (Ct 2:14). - Comentário sobre João

João 10:5

O efeito que o ladrão tem é que as ovelhas não o seguem por muito tempo, mas apenas por um tempo; assim ele diz, a um estranho não seguirão, isto é, não seguem um falso e herético mestre: "Os filhos estrangeiros mentiram para mim" (Sl 17:46). Assim Paulo não seguiu mestres falsos por muito tempo. Mas fugirão dele, porque "A má companhia corrompe as boas maneiras" (1 Co 15:33). Fogem porque não conhecem, isto é, não aprovam, a voz dos estrangeiros, significando seu ensino, que se espalha sorrateiramente como um câncer. — Comentário sobre João

João 10:6

Aqui o Evangelista conta porque foi necessário explicar a semelhança acima; e essa necessidade foi causada pela falta de compreensão de seus ouvintes. Primeiro, ele menciona a razão pela qual eles não conseguiram compreender; em segundo lugar, ele diz que eles não conseguiram entender. A causa da sua incapacidade de compreender foi que Cristo estava falando em números. O evangelista diz: Esta figura Jesus usou com eles. Figura, propriamente dita, é o uso de uma palavra no lugar de outra, quando se pretende que uma palavra seja entendida a partir de sua semelhança com a outra. Isso também é chamado de parábola. Nosso Senhor falou em figuras, antes de mais nada, por causa dos ímpios, para lhes ocultar os mistérios do reino dos céus: «A vós foi dado conhecer os segredos do reino de Deus; mas a outros estão em parábolas» (Lc 8,10). Em segundo lugar, por causa do bem, para que os seus números pudessem incitá-los a fazer mais investigações. Assim, depois que nosso Senhor contou suas figuras ou parábolas às multidões, seus discípulos o questionaram em particular, como mencionado em Mateus (13:10) e Marcos (4:10). Esta é a razão pela qual Agostinho diz: “Nosso Senhor alimenta” as multidões crentes “com palavras claras, e desperta” os seus discípulos “com coisas obscuras”. O Evangelista revela a sua falta de compreensão quando diz, mas eles não entenderam o que ele lhes dizia. A ignorância que resultou das figuras de Cristo foi útil e prejudicial. Para os bons e justos que procuravam compreendê-los, era útil para louvar a Deus; pois embora não entendessem, eles creram e louvaram o Senhor e sua sabedoria que estava tão acima deles: “A glória de Deus é ocultar a palavra” (Pv 25:2). Mas para os ímpios era uma fonte de mal, porque, não entendendo, blasfemavam: “Mas estes homens insultam tudo o que não entendem” (Judas 10). Como observa Agostinho, quando tanto os bons como os ímpios ouvem as palavras do Evangelho, e nenhum deles as compreende, o bom diz que o que foi dito era verdadeiro e bom, mas que não o compreende. Tal pessoa está batendo e merece que a porta seja aberta, desde que persevere. Mas o ímpio diz que o que foi dito não tinha sentido ou era mau. - Comentário sobre João

João 10:7

Agora nosso Senhor explica a semelhança. Se a semelhança acima for examinada corretamente, ela contém duas cláusulas principais, seguidas de outras. A primeira é: “Quem não entra no curral pela porta… é ladrão e salteador”. A segunda é: “Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas”. Dessa forma, esta seção está dividida em duas partes. Primeiro, ele explica a primeira cláusula; depois a segunda cláusula (v 11). Em relação à primeira ele faz duas coisas: primeiro, explica a primeira cláusula; em segundo lugar, ele prova isso (v 7). A primeira cláusula menciona uma porta, um ladrão e um assaltante; então primeiro ele explica a porta, depois o ladrão e depois o assaltante (v 8). A respeito do primeiro ele diz: Então Jesus lhes disse novamente, para chamar sua atenção e fazê-los entender a semelhança: “O homem de entendimento pode adquirir habilidade para entender um provérbio e uma figura” (Pv 1:6). Jesus disse: Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta. Ora, o propósito de uma porta é conduzir a pessoa para os cômodos internos de uma casa; e isto convém a Cristo, pois é preciso entrar nos segredos de Deus por meio dele: “Esta é a porta do Senhor”, isto é, de Cristo, “os justos entrarão por ela” (Sl 118,20). Ele diz: Eu sou a porta das ovelhas, porque através de Cristo não só os pastores são trazidos para a Igreja atual ou entram na felicidade eterna, mas também as ovelhas. Assim ele diz abaixo: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz… e me seguem; e eu lhes dou a vida eterna” (10:27). - Comentário sobre João

João 10:8

Depois, quando ele diz: Todos que vieram antes de mim são ladrões e salteadores, ele explica o que tinha dito sobre ladrões e salteadores. Primeiro, ele mostra quem são os ladrões e salteadores; segundo, seu sinal. Quanto ao primeiro, devemos evitar o erro dos maniqueus, que rejeitaram o Antigo Testamento com o argumento de que aqui diz que todos que vieram antes de mim são ladrões. Eles mantinham que os pais do Antigo Testamento, que vieram antes de Cristo, eram maus e foram condenados. A falsidade desta visão é clara a partir de três coisas. Primeiro, a partir do que esta parábola diz. Pois a afirmação: todos que vieram antes de mim, pretende ser uma descrição da afirmação anterior, que mencionava aqueles que não entram pela porta. Portanto, todos que vieram antes de mim, mas não por meio de mim, isto é, não entrando pela porta, são ladrões e salteadores. É claro que todos os patriarcas e profetas, para quem o Cristo-vindouro tinha enviado precursores, entraram pela porta, isto é, Cristo. Pois embora tenha tomado carne e se tornado homem no tempo, era a Palavra de Deus desde toda a eternidade: "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre" (Hb 13:8). De fato, os profetas foram enviados pela Palavra e Sabedoria de Deus: "Em cada geração ela", a Sabedoria de Deus, "passa para almas santas e as torna amigas de Deus e profetas" (Sb 7:27). Conseqüentemente, expressamente lemos nos profetas que a palavra de Deus veio a este ou àquele profeta, que profetizou por participação na Palavra de Deus. Segundo, a falsidade do ensino dos maniqueus é vista quando nosso Senhor diz: todos que vieram antes de mim, implicando que estavam se impondo por sua própria autoridade e não eram enviados por Deus: "Não enviei os profetas, mas eles correram" (Jr 23:21). De fato, tais profetas não vieram da Palavra de Deus: "Ai dos profetas insensatos que seguem seu próprio espírito e nada viram" (Ez 13:3). Mas os pais do Antigo Testamento não eram deste tipo, como foi dito. Terceiro, esta falsidade é vista a partir do fato de que ele mostra qual efeito suas palavras tiveram, pois lemos: mas as ovelhas não os ouviram. Portanto, aqueles que as ovelhas ouviram não eram ladrões e salteadores. Ora, o povo de Israel ouviu os profetas, e aqueles que não os ouviram foram repreendidos na Escritura Sagrada: "Qual dos profetas não foi perseguido por vossos pais?" (At 7:52); "Ó Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados!" (Mt 23:37). Tendo excluído este erro, deve-se dizer que todos que vieram antes de mim, isto é, independentemente de mim, sem inspiração e autoridade divinas, e não com a intenção de buscar a glória de Deus mas adquirir a sua própria, são ladrões, na medida em que tomam para si o que não é seu, isto é, a autoridade de ensinar - "Teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões" (Is 1:23) - e salteadores, porque matam com sua doutrina corrupta - "Vós a fizestes covil de ladrões" (Mt 21:13); "Como os ladrões espreitam um homem... matam no caminho" (Os 6:9). Mas as ovelhas, isto é, os predestinados, não os ouviram, aos ladrões e salteadores, pois do contrário não seriam ovelhas de Cristo, porque, como foi dito antes: "Um estrangeiro não seguirão, mas dele fugirão." Além disso, isto é mandado em Deuteronômio: "Não ouvirás as palavras daquele profeta ou daquele sonhador de sonhos" (13:3). — Comentário a João

João 10:9

Eu sou a porta. Aqui ele esclarece sua explicação: primeiro, da porta; em segundo lugar, do ladrão (v 10). Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, repete o que pretende explicar; e em segundo lugar, ele dá a explicação (v 9). Ele repete o que já havia dito, a saber, eu sou a porta: “Se ela for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro” (Ct 8,9), ou seja, concedamos-lhe um poder incorruptível. Ele explica isso quando diz: se alguém entrar por mim, será salvo. Primeiro, ele mostra que o propósito de uma porta, que é manter as ovelhas seguras, aplica-se a ele mesmo; em segundo lugar, ele menciona a maneira pela qual eles são mantidos em segurança (v. 9b). A porta protege as ovelhas, impedindo que aqueles que estão dentro delas saiam e protegendo-as de estranhos que desejam entrar. E isto se aplica a Cristo, pois ele é a nossa salvaguarda e proteção. E é isso que ele diz: se alguém, não com falta de sinceridade, entrar na comunhão da Igreja e dos fiéis, por mim, a porta, será salvo, ou seja, se perseverar: “Porque debaixo do céu não há outro nome, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12); “Seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5:10). A maneira como as ovelhas são protegidas é exposta quando ele diz que entrará e sairá e encontrará pastagens. Esta afirmação pode ser explicada de quatro maneiras. Em primeiro lugar, segundo Crisóstomo, simplesmente afirma a segurança e a liberdade daqueles que se apegam a Cristo. Quem entra por outro caminho que não seja pela porta não tem entrada e saída livres; mas quem entra pela porta tem saída livre, porque pode sair livremente. Portanto, quando ele diz, ele entrará e sairá, o significado é que os Apóstolos que aderiram a Cristo entram com segurança, vivendo com os fiéis, que estão dentro da Igreja, e com os incrédulos, que estão fora, quando se tornaram senhores do mundo inteiro e ninguém quis expulsá-los: "Que o Senhor, o Deus dos espíritos de toda a carne, designe um homem sobre a congregação, que sairá diante deles e entrará diante deles... para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não tenho pastor” (Nm 27:16). E encontrar pasto, encontrar prazer em converter outros e encontrar alegria mesmo quando perseguidos por incrédulos por causa do nome de Cristo: “Então eles saíram da presença do conselho, regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer desonra por causa do nome”, como lemos em Atos (5:41). Em segundo lugar, isto pode ser explicado como Agostinho faz no seu Comentário sobre João. Duas coisas são incumbências de quem age bem, a saber, estar bem ordenado com as coisas que estão dentro dele e com as que estão fora. Dentro de uma pessoa está o espírito, e fora está o corpo: “Embora a nossa natureza exterior esteja se definhando, a nossa natureza interior se renova a cada dia” (2 Coríntios 4:16). Portanto, quem se apega a Cristo entrará pela contemplação, para proteger a sua consciência - "Quando eu entrar na minha casa", isto é, na minha consciência, "encontrarei descanso com ela", isto é, com sabedoria (Sb 8,16) - e sairá, nomeadamente, pelas boas ações, para domar o corpo - "O homem sai para o seu trabalho e para o seu trabalho até à tarde" (Sl 104,23) - e encontrará pastagens, com a consciência limpa e sincera - “Aparecerei diante dos teus olhos; ficarei satisfeito quando a tua glória aparecer” (Sl 16:15). Novamente, pelas suas ações ele encontrará pasto, isto é, fruto – “Ele voltará para casa com gritos de alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Sl 126:6). A terceira explicação é também a de Agostinho e também a dada por Gregório no seu Comentário sobre Ezequiel. O significado, então, é este. Tal pessoa entrará, isto é, na Igreja, crendo – “Eu irei para o lugar do tabernáculo maravilhoso” (Sl 41:5), e isso é entrar na Igreja Militante; e para fora, da Igreja Militante para a Igreja Triunfante - “Saí, ó filhas de Sião, e eis o rei Salomão, com a coroa com que sua mãe o coroou no dia do casamento” (Ct 3:11); e encontrar pastagens, isto é, as pastagens da doutrina e da graça na Igreja Militante – “Ele me faz deitar em pastos verdejantes”; e as pastagens de glória na Igreja Triunfante: “Eu os alimentarei com boas pastagens” (Ez 34,14). Em quarto lugar, há uma explicação encontrada na obra Sobre o Espírito e a Alma, que foi incorretamente atribuída a Agostinho. Aqui se diz que tal entrará, isto é, os santos entrarão para contemplar a divindade de Cristo, e sairão, para considerar sua humanidade; e em ambos encontrarão pasto, porque em ambos saborearão as alegrias da contemplação: “Os teus olhos verão o rei na sua formosura” (Is 33,17). - Comentário sobre João

João 10:10

Agora ele considera o ladrão. Primeiro, ele menciona a marca do ladrão; em segundo lugar, ele diz que ele mesmo tem a característica oposta, eu vim para que tenham vida. Ele diz que aqueles que não entram pela porta, isto é, aqueles que vieram independentemente de mim, são ladrões e salteadores; e eles são maus. Pois, em primeiro lugar, o ladrão vem apenas para roubar, isto é, para usurpar o que não é dele; estes são os agitadores e os hereges, que se agarram aos que pertencem a Cristo: «Ele arma uma emboscada para apanhar os pobres» (Sl 9,4). Em segundo lugar, o ladrão vem para matar, e ele mata trazendo ensinamentos perversos e práticas malignas: “Como os ladrões armam ciladas para um homem…eles matam no caminho” (Os 6:9). Em terceiro lugar, o ladrão vem para destruir, lançando-o na destruição eterna: “O meu povo é ovelha perdida” (Jr 50,6). Mas essas características não estão em mim. Eu vim para que eles tenham vida. Isto é como dizer: Os que foram mencionados acima não vieram de mim, caso contrário, fariam o que eu faço. Mas eles fazem o contrário, porque roubam, matam e destroem. Eu vim para que tenham vida, isto é, vida de justiça, entrando na Igreja Militante pela fé: “O meu justo viverá pela fé” (Hb 10:38). Lemos sobre esta vida em 1 João (3:14) que “Sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos”. E tê-la em abundância, ou seja, ter a vida eterna, quando saírem do corpo. Lemos abaixo sobre esta vida: “A vida eterna é esta: que te conheçam como único Deus verdadeiro” (17:3). - Comentário sobre João

João 10:11

Aqui ele explica a segunda cláusula da parábola: “aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas” (10:2). Primeiro ele dá a explicação; em segundo lugar, ele deixa isso claro (v 14). Primeiro, explica que é o bom pastor; em segundo lugar, ele declara o ofício de um bom pastor (v 11b); em terceiro lugar, ele mostra que o oposto é encontrado num pastor mau (v 12). Ele diz, em relação ao primeiro, eu sou o bom pastor. Que Cristo é pastor é bastante claro, pois assim como um rebanho é conduzido e alimentado pelo pastor, assim os fiéis são nutridos por Cristo com alimento espiritual, e até com seu próprio corpo e sangue: "Porque vocês estavam desgarrados como ovelhas, mas agora voltaram para o Pastor e Guardião de suas almas" (1 Pd 2,25); “Ele apascentará o seu rebanho como um pastor” (Is 40,11). Para distinguir-se de um mau pastor e ladrão, acrescenta, bom. Bom, digo, porque cumpre o ofício de pastor, assim como se chama bom o soldado que cumpre o ofício de soldado. Mas como Cristo tinha dito acima que o pastor entra pela porta, e aqui diz que é o pastor, e antes de dizer que era a porta (v 9), então deve entrar por si mesmo. E ele entra por si mesmo, porque se manifesta e por si mesmo conhece o Pai. Nós, porém, entramos por meio dele, porque é por ele que somos conduzidos à felicidade. Observe que só ele é a porta, porque ninguém mais é a verdadeira luz, mas apenas participa da luz: “Ele”, João Batista, “não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz” (1:8). Mas lemos sobre Cristo que “Ele era a verdadeira luz que ilumina todo homem” (1:9). Portanto, ninguém mais se refere a si mesmo como porta; Cristo reservou isso para si mesmo. Mas, sendo pastor, ele compartilhou com os outros e conferiu isso aos seus membros: pois Pedro era pastor, e os outros apóstolos eram pastores, assim como todos os bons bispos: “Eu vos darei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). Ora, embora os dirigentes da Igreja, que são os seus filhos, sejam todos pastores, como diz Agostinho, ainda assim ele diz expressamente, eu sou o bom pastor, para sublinhar a virtude da caridade. Pois ninguém é um bom pastor a menos que se torne um com Cristo pelo amor e se torne membro do verdadeiro pastor. A função do bom pastor é a caridade; assim diz ele, o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Deve-se notar que há uma diferença entre um bom pastor e um mau pastor: o bom pastor está preocupado com o bem-estar do rebanho, mas o mau está preocupado com o seu próprio. Esta diferença é abordada por Ezequiel (34:2): “Ah, pastores de Israel que se alimentam! Não deveriam os pastores apascentar as ovelhas?” Portanto, quem usa o rebanho apenas para se alimentar não é um bom pastor. Disto se segue que um mau pastor, mesmo em relação aos animais, não está disposto a suportar qualquer perda para o rebanho, uma vez que não pretende o bem-estar do rebanho, mas o seu próprio. Mas um bom pastor, mesmo sobre os animais, suporta muitas coisas pelo rebanho cujo bem-estar ele tem em mente. Assim Jacó disse em Gênesis (31:40): “De dia o calor me consumia, e o frio de noite”. Contudo, ao lidar com meros animais não é necessário que um bom pastor se exponha à morte para a segurança do rebanho. Mas porque a segurança espiritual do rebanho humano supera a vida corporal do pastor, quando o perigo ameaça a segurança do rebanho, o pastor espiritual deve sofrer a perda da sua vida corporal pela segurança do rebanho. Assim diz nosso Senhor, o bom pastor dá a sua vida, ou seja, a sua vida corporal, pelas ovelhas, as ovelhas que são suas por autoridade e caridade. Ambos são necessários, pois devem pertencer a ele e ele deve amá-los; o primeiro sem o segundo não é suficiente. Além disso, Cristo deu-nos um exemplo deste ensinamento: «Ele deu a sua vida por nós; e nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos» (1 Jo 3, 16). - Comentário sobre João

João 10:12

Agora ele considera o pastor mau, mostrando que possui características contrárias às do bom pastor. Primeiro, ele menciona as marcas de um pastor mau; em segundo lugar, ele mostra como estas marcas se seguem uma à outra (v 12). Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, ele dá as marcas de um pastor mau; em segundo lugar, ele menciona o perigo que ameaça o rebanho por causa de um pastor mau: o lobo os arrebata e os dispersa. Note que do que foi dito sobre o bom e o mau pastor, há três diferenças em seus traços: primeiro em suas intenções; em segundo lugar, em sua solicitude; e em terceiro lugar em seus afetos. Primeiro, eles diferem em suas intenções, o que está implícito em seus próprios nomes. Pois o primeiro é chamado de bom pastor, e isto implica que ele intenta alimentar o rebanho: "Não devem os pastores apascentar as ovelhas?" (Ez 34:2). Mas o outro, o pastor mau, é chamado de mercenário, como se estivesse interessado em seus salários. Assim diferem nisso: o bom pastor olha para o benefício do rebanho, enquanto o mercenário busca principalmente sua própria vantagem. Esta é também a diferença entre um rei e um tirano, como diz o Filósofo, porque quando um rei governa ele intenta beneficiar seus súditos, enquanto um tirano busca seu próprio interesse. Assim um tirano é como um mercenário: "Se vos parece bem, dai-me meu salário" (Zc 11:12). Mas não podem até mesmo bons pastores buscar um salário? Parece que sim, pois "Recompensai os que esperam por ti" (Si 36:16); "Vem o Senhor Deus... seu prêmio vem com ele" (Is 40:10); "Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância!" (Lc 15:17). Respondo que o salário pode ser tomado num sentido geral e num sentido próprio. Num sentido geral, um salário é qualquer coisa conferida por razão de méritos. E porque a vida eterna, que é Deus - "Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna" (1 Jo 5:20) - é conferida por razão de méritos, a vida eterna é dita ser um salário. E este é um salário que todo bom pastor pode e deve buscar. No sentido estrito, porém, um salário é diferente de uma herança, e um salário não é buscado por um verdadeiro filho, que tem direito à herança. Um salário é buscado por servos e mercenários. Assim, uma vez que a vida eterna é nossa herança, qualquer um que trabalha olhando para ela está trabalhando como filho; mas qualquer um que almeja algo diferente (por exemplo, alguém que anseia por ganho mundano, ou se deleita na honra de ser prelado) é um mercenário. Em segundo lugar, eles diferem em sua solicitude. Lemos do bom pastor que as ovelhas são suas, não só como uma custódia, mas também por amor e solicitude: "Vos tenho em meu coração" (Fl 1:7). Por outro lado, é dito do mercenário, cujas as ovelhas não são suas, isto é, o mercenário não tem cuidado com elas: "Meus pastores não buscaram minhas ovelhas, mas os pastores se alimentaram" (Ez 34:8). Em terceiro lugar, eles diferem em seus afetos. Pois o bom pastor, que ama seu rebanho, dá sua vida por ele, isto é, se expõe aos perigos que afetam sua vida corporal. Mas o pastor mau, porque não tem amor pelo rebanho, foge quando vê o lobo. Assim ele diz, vê o lobo vindo e deixa as ovelhas e foge. Aqui, o lobo é compreendido de três maneiras. Primeiro, pelo diabo como tentador: "Que comunhão tem o lobo com o cordeiro? Nenhuma tem o pecador com o homem piedoso" (Si 13:17). Em segundo lugar, representa o herege que destrói: "Guardai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores" (Mt 7:15); "Sei que, depois da minha partida, entrarão entre vós lobos ferozes, não poupando o rebanho" (At 20:29). Em terceiro lugar, representa o tirano furioso: "Seus príncipes no meio dela são como lobos" (Ez 22:27). Portanto, o bom pastor deve guardar o rebanho contra esses três lobos, de modo que quando vê o lobo, isto é, o diabo tentando, o herege enganador e o tirano furioso, possa se opor a ele. Contra aqueles que não o fazem, lemos, "Não sobistes às brechas, nem edificastes muro para a casa de Israel" (Ez 13:5). Acordemente, lemos do pastor mau que ele deixa as ovelhas e foge: "Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho" (Zc 11:17). Como que dizendo: Tu não és pastor, mas só pareces ser um: "Seus soldados assoldados no meio dela são como vitelos engordados; sim, voltaram-se e fugiram juntos, não se mantêm de pé" (Jr 46:21). Mas em Mateus (10:23) encontramos o contrário: "Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para a outra." Portanto, parece ser lícito a um pastor fugir. Respondo que há duas respostas para isto. Uma é dada por Agostinho em seu Comentário sobre João. Há dois tipos de fuga: a da alma e a do corpo. Quando lemos aqui, ele deixa as ovelhas e foge, podemos compreender como sendo a fuga da alma: pois quando um pastor mau teme perigo pessoal de um lobo, ele não ousa resistir a suas injustiças mas foge, não correndo, mas retirando seu encorajamento, recusando-se a cuidar de seu rebanho. Isso deveria ser a explicação ao considerar o primeiro tipo de lobo, o diabo tentador, porque não é necessário fugir fisicamente do diabo. Mas uma vez que às vezes um pastor fuge fisicamente por causa de certos lobos, como hereges poderosos e tiranos, outra resposta deve ser dada, como encontrada na Carta de Agostinho a Honorato. Como ele diz, parece ser lícito fugir, até mesmo fisicamente, dos lobos, não apenas por causa da autoridade de nosso Senhor, como citado acima, mas por causa do exemplo de certos santos, como Atanásio e outros, que fugiram de seus perseguidores. Pois o que é censurado não é a fuga em si, mas a negligência do rebanho; assim, se o pastor pudesse fugir sem abandonar seu rebanho, não seria culpável. Às vezes é o próprio prelado quem é procurado, e outras vezes é o rebanho inteiro. É óbvio que se o prelado sozinho é procurado, outros podem ser designados para guardar o rebanho em seu território, e consolar e governar o rebanho em seu lugar. Assim se ele foge nessas circunstâncias, não se diz que ele deixa as ovelhas. Dessa forma, é lícito fugir em certos casos. Mas se o rebanho inteiro é procurado, então ou todos os pastores devem estar com o povo, ou alguns devem permanecer enquanto os outros partem. Mas se todos abandonam o rebanho, então estas palavras se aplicam, vê o lobo vindo e deixa as ovelhas e foge. Aqui ele menciona o duplo perigo que ameaça. Um é o arrebatamento das ovelhas; assim ele diz, e o lobo as arrebata, isto é, toma para si o que pertence a outro, pois os fiéis são as ovelhas de Cristo. Portanto, líderes de seitas e lobos arrebatam as ovelhas quando seduzem os fiéis de Cristo a seus próprios ensinamentos: "Minhas ovelhas se tornaram alimento para todas as bestas do campo" (Ez 34:8). O outro perigo é que as ovelhas sejam dispersadas; assim ele diz, e as dispersa, na medida em que alguns são desencaminhados e outros perseveram: "Minhas ovelhas foram dispersas por toda a face da terra, sem ninguém as procurar ou buscar" (Ez 34:6). — Comentário sobre João

João 10:13

Agora ele mostra como as marcas acima mencionadas estão relacionadas, pois a terceira segue das duas primeiras. Como o pastor mau busca sua própria vantagem e não tem amor ou solicitude pelo rebanho, segue-se que ele não está disposto a sofrer qualquer inconveniente por eles. Portanto, ele diz do mercenário, ele foge, por essa razão, porque é um mercenário, isto é, busca sua própria vantagem, que é a primeira marca; e não se preocupa com as ovelhas, isto é, não as ama, e não tem solicitude por elas, que é a segunda marca. Assim lemos em Jó (39:16) sobre o pastor mau: "Ela trata cruelmente seus filhotes, como se não fossem seus." O oposto é verdadeiro para o bom pastor, pois busca o bem de seu rebanho, e não o seu próprio: "Não que procure o presente; mas procuro o fruto que aumenta para o vosso crédito" (Fl 4:17). Além disso, ele se preocupa com suas ovelhas, isto é, as ama e tem solicitude por elas: "Vos levo no meu coração" (Fl 1:7). — Comentário sobre João

João 10:14

Aqui nosso Senhor prova sua explicação. Primeiro, ele reafirma o que ele pretende provar; em segundo lugar, ele dá a prova, Eu conheço os meus (v 14b); e em terceiro lugar, ele expande sobre isto (v 17). Ele diz, Eu sou o bom pastor, que foi explicado acima: 'Como um pastor busca seu rebanho...assim buscarei minhas ovelhas' (Ezequiel 34:12). Então ele diz, Eu conheço os meus, ele prova o que diz. Agora ele diz duas coisas sobre si mesmo, que é um pastor, e que é bom. Primeiro, ele prova que é um pastor; em segundo lugar, que é um bom pastor. Ele prova ser um pastor pelos dois sinais de um pastor já mencionados. O primeiro destes é que ele chama suas próprias ovelhas por nome. A respeito disto ele diz, Eu conheço os meus: 'O Senhor conhece os que são seus' (2 Timóteo 2:19). Eu conheço, digo, não apenas com mero conhecimento somente, mas com um conhecimento unido com aprovação e amor: 'Àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados' (Apocalipse 1:5). O segundo sinal é que as ovelhas ouvem sua voz e o conhecem. E a respeito disto ele diz, e os meus me conhecem. Os meus, digo, por predestinação, por vocação e por graça. Isto é como dizer: Eles me amam e me obedecem. Assim, devemos entender que eles têm um conhecimento amoroso sobre qual lemos: 'Todos me conhecerão, do menor deles até o maior' (Jeremias 31:34). — Comentário de João

João 10:15

Ele mostra que é um bom pastor ao mencionar que tem a função de bom pastor, que é dar a vida pelas suas ovelhas. Primeiro, ele mostra a razão disso; em segundo lugar, ele dá um sinal disso; e em terceiro lugar, ele mostra o fruto do seu sinal. A razão deste sinal, isto é, de dar a vida pelas suas ovelhas, é o conhecimento que ele tem do Pai. A respeito disso ele diz, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Esta afirmação pode ser explicada de duas maneiras. Por um lado, de modo que “como” indica apenas uma semelhança de conhecimento; e assim tomado, tal conhecimento pode ser dado a uma criatura: “Conhecerei como sou conhecido” (1 Coríntios 13:12), ou seja, como sou conhecido sem obscuridade, também conhecerei sem obscuridade. Por outro lado, o “como” implica uma igualdade de conhecimento. E então conhecer o Pai como ele é conhecido por ele é próprio apenas do Filho, porque só o Filho conhece o Pai de forma abrangente, assim como o Pai conhece o Filho de forma abrangente: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho” (Mt 11,27), isto é, com um conhecimento abrangente. Nosso Senhor diz isso porque conhecendo o Pai, ele conhece a vontade do Pai de que o Filho morra pela salvação da raça humana. Ele também está dizendo aqui que é o mediador entre Deus e o homem. Pois assim como ele está relacionado com as ovelhas como são conhecidas por elas e como as conhecem, assim também ele está relacionado com o Pai, porque assim como o Pai o conhece, ele também conhece o Pai. Depois, quando diz: e eu dou a minha vida pelas ovelhas, ele dá o sinal: «Nisto conhecemos o amor: em que ele deu a sua vida por nós» (1 Jo 3, 16). Mas como existem três substâncias em Cristo, a saber, a substância da Palavra, da alma e do corpo, alguém poderia perguntar quem está falando quando diz: Eu dou a minha vida. Se você diz que o Verbo está falando aqui, não é verdade, porque o Verbo nunca entregou a sua alma, pois Ele nunca foi separado da sua alma. Se você disser que a alma fala, isso também parece impossível, porque nada está separado de si mesmo. E se você diz que Cristo diz isso referindo-se ao seu corpo, não parece ser assim, porque o seu corpo não tem o poder de assumir a sua alma. Portanto, deve-se dizer que quando Cristo morreu, sua alma foi separada de sua carne, caso contrário Cristo não estaria verdadeiramente morto. Mas em Cristo, a sua divindade nunca foi separada da sua alma ou da sua carne; mas estava unido à sua alma, enquanto descia ao mundo inferior, e ao seu corpo, enquanto estava no túmulo. E, portanto, seu corpo, pelo poder de sua divindade, entregou sua alma pelo poder de sua divindade e a retomou. - Comentário sobre João

João 10:16

Então quando ele diz, e tenho outras ovelhas, ele apresenta o fruto da morte de Cristo, que é a salvação não apenas dos judeus, mas também dos gentios. Pois, uma vez que ele havia dito, "Dou minha vida pelas ovelhas," os judeus, que se consideravam como as ovelhas de Deus - "Somos teu povo, rebanho de teu pasto" (Sl 79:13) - poderiam ter dito que ele deu sua vida apenas por eles. Mas nosso Senhor acrescenta que não é apenas por eles, mas também por outros: "Profetizou que Jesus deveria morrer pela nação, e não apenas pela nação, mas para congregar em um os filhos de Deus que estão dispersos" (11:51). Quanto a este fruto nosso Senhor faz três coisas. Primeiro, ele menciona a predestinação dos gentios; segundo, sua vocação mediante a graça; e terceiro, sua justificação. Quanto ao primeiro, ele diz, e tenho outras ovelhas, isto é, os gentios, que não são deste aprisco, isto é, da família da carne de Israel, que era de certa forma um rebanho: "Certamente vos congregarei a todos, ó Jacó" (Mq 2:12). Pois como as ovelhas são encerradas num aprisco, assim os judeus eram mantidos encerrados nos preceitos da Lei, como lemos em Gálatas (c 3). Essas outras ovelhas, eu digo, isto é, os gentios, tenho de meu Pai mediante uma predestinação eterna: "Pede-me, e te darei as nações por herança" (Sl 2:8); "Dar-te-ei por luz das nações, para que minha salvação chegue até à extremidade da terra" (Is 49:6). Quanto ao segundo, ele diz, devo também trazê-las, isto é, segundo os planos da predestinação divina é tempo chamá-las à graça. Isto parece estar em conflito com o que nosso Senhor diz em Mateus (15:24): "Fui enviado apenas às ovelhas perdidas da casa de Israel." Respondo que Jesus foi enviado apenas às ovelhas da casa de Israel no sentido de pregar a eles pessoalmente, como lemos em Romanos (15:8): "Cristo se tornou servo dos circuncisos para demonstrar a veracidade de Deus, a fim de confirmar as promessas dadas aos patriarcas." Foi através dos apóstolos que ele trouxe os gentios: "Deles enviarei sobreviventes aos povos" (Is 66:19). Quanto ao terceiro, ele diz, e ouvirão minha voz. Aqui ele menciona três coisas necessárias para a retidão na religião cristã. A primeira é a obediência aos mandamentos de Deus. Concernente a isto, ele diz, e ouvirão minha voz, isto é, observarão meus mandamentos: "Ensinando-os a observar tudo que vos ordenei" (Mt 28:20); "Povo que não conhecia," isto é, que não aprovava, me serviu. Tão logo ouviram falar de mim, me obedeceram" (Sl 18:43). O segundo é a unidade de caridade, e concernente a isto, ele diz, assim haverá um rebanho, isto é, uma Igreja dos fiéis dos dois povos, judeus e gentios: "Uma fé" (Ef 4:5); "Pois ele é nossa paz, que fez de ambos um" (Ef 2:14). O terceiro é a unidade de fé, e a este respeito, ele diz, um pastor: "Todos terão um único pastor," isto é, judeus e gentios (Ez 37:24). — Comentário sobre João

João 10:17

Agora nosso Senhor explica sua prova: primeiro, ele amplia o motivo do sinal de sua morte por suas ovelhas; em segundo lugar, ele explica o sinal ou o efeito (v 18); em terceiro lugar, ele mostra que a razão é apropriada (v 18b). Nosso Senhor diz que a razão de sua morte é o conhecimento que ele tem do Pai, dizendo: “como o Pai me conhece e eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas”. Ao explicar isto ele diz, por isso o Pai me ama. Disto fica claro que o Pai o conhece com um conhecimento aliado à aprovação, por isso, digo, porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Mas é verdade que a sua morte é a causa do amor do Pai? Parece que não, porque algo temporal não é causa de algo eterno. Mas a morte de Cristo ocorre na ordem temporal, enquanto o amor de Deus por Cristo é eterno. Respondo que Cristo está falando aqui do amor do Pai por ele como tendo uma natureza humana. Conseqüentemente, esta passagem pode ser entendida de três maneiras. Por um lado, porque indica uma causa, por outro lado indica o termo ou sinal do amor. Se for tomado causalmente, então o significado é: porque eu dou a minha vida, isto é, suporto a morte, por isso o Pai me ama, isto é, ele me concede o efeito do seu amor, que é a glória e a exaltação do meu corpo: “Ele se humilhou e se tornou obediente até a morte, e morte de cruz. Mas alguém poderia objetar a isto que as boas obras não podem merecer o amor divino. Pois como as nossas obras são meritórias na medida em que pela caridade lhes é dada vida - "Se eu renunciar a tudo o que tenho... mas não tiver amor, não ganho nada" (1 Cor 13, 3) - e como Deus é o primeiro a amar - "Nisto consiste o amor: não em que amemos a Deus, mas em que ele nos amou primeiro" (1 Jo 4, 10) - é claro que o seu amor precede todo o nosso mérito. Isto pode ser respondido dizendo que ninguém pode merecer o amor de Deus; no entanto, podemos merecer pelas nossas boas obras o efeito do amor de Deus, isto é, um aumento da graça e a recepção do bem da glória, ambos os quais Deus nos concede por causa do seu amor. Assim podemos dizer que por isso Deus ama esta ou aquela pessoa, ou seja, concede-lhe o efeito do seu amor, porque obedece aos seus mandamentos. E assim podemos dizer de Cristo como homem, que por isso o Pai o ama, isto é, o exaltou e lhe deu o brilho da glória, porque deu a vida na morte. Mas se porque indica um sinal de amor, então o significado é este: por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, como se dissesse: Este é um sinal de que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para que possa retomá-la, ou seja, cumpro os seus mandamentos e vontade e suporto a morte. Pois um sinal óbvio de amor é que uma pessoa, por caridade, cumpre os mandamentos de Deus. - Comentário sobre João

João 10:18

Agora ele explica o efeito do sinal. E visto que o sinal foi "Eu dou minha vida pelas ovelhas," ele explica como ele a dá. Primeiro, ele exclui a violência; segundo, ele fala de seu poder. A violência que ele exclui é aquela que poderia ser empregada em tirar uma vida: tal violência não foi realizada em Cristo. Concernente a isto ele diz, ninguém a toma de mim, ou seja, minha vida, pela violência, mas eu a dou, pelo meu próprio poder, ou seja, de minha própria vontade: "Pode a presa ser tirada do poderoso?" (Is 49:24). Mas os judeus não usaram violência contra Cristo? Usaram na medida em que era neles; mas esta violência não estava em Cristo porque ele deu sua vida voluntariamente, quando quis. Assim lemos acima (7:30) que os judeus quiseram prendê-lo mas foram incapazes "porque sua hora ainda não tinha chegado." Foi voluntário "não como se fosse forçado a morrer, mas condescendeu em ser morto," como diz Agostinho. Ele acrescenta algo sobre seu poder quando diz, Tenho poder de dar minha vida. A respeito disto deve-se notar que visto que a união da alma e do corpo é natural, sua separação é natural. E embora a causa desta separação e morte possa ser voluntária, contudo entre os humanos a morte é sempre natural. Agora a natureza não está sujeita à vontade de nenhuma mera criatura humana, visto que a natureza, assim como a vontade, são de Deus. Portanto, a morte de qualquer mera criatura humana deve ser natural. Mas em Cristo, sua própria natureza e qualquer outra natureza estão sujeitas a sua vontade, assim como artefatos estão sujeitos à vontade do artesão. Assim, de acordo com o prazer de sua vontade, ele poderia dar sua vida quando quis, e ele poderia recebê-la novamente; nenhuma mera criatura humana pode fazer isto, embora pudesse voluntariamente usar algum instrumento para matar a si mesmo. Isto explica por que o centurião, vendo que Cristo não morreu por uma necessidade natural, mas por sua própria vontade - visto que "Jesus gritou novamente com voz alta e entregou seu espírito" (Mt 27:50) - reconheceu um poder divino nele, e disse: "Verdadeiramente, este era o Filho de Deus" (Mt 27:54). Novamente, o Apóstolo diz em 1 Coríntios (1:18): "Porque a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para nós que somos salvos é o poder de Deus," ou seja, seu grande poder foi revelado exatamente na morte de Cristo. Aqui ele mostra que a razão acima mencionada é apropriada, pois cumprir um mandamento mostra amor por aquele que ordena. Assim ele diz, este mandamento recebi de meu Pai, ou seja, dar minha vida e recebê-la novamente: "Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará" (14:23). — Comentário sobre João

João 10:19

Depois de mostrar que ele tem poder para dar vida e mostrando sua maneira de fazer assim, nosso Senhor aqui mostra como este poder de dar vida lhe pertence. Primeiro, o Evangelista menciona a disputa que surgiu entre a multidão neste ponto; em segundo lugar, ele dá a discussão entre os líderes judeus e Cristo (v 22). Quanto ao primeiro, ele faz três coisas. Primeiro, menciona a disputa dentro da multidão; em segundo lugar, ele dá a opinião de um lado; e depois expõe a posição razoável do outro lado. A disputa surgiu dentro da multidão que estava ouvindo Cristo por causa do que ele disse. O Evangelista diz, E havia de novo uma divisão entre os judeus por causa destas palavras. Já que alguns deles compreenderam suas palavras corretamente, e outros não, eles discutiram entre si: "Não vim trazer paz, mas espada," isto é, a espada do ensinamento evangélico, que alguns acreditaram e outros negam (Mt 10:34). "Ele verteu desprezo sobre os príncipes" (Sl 107:40). — Comentário sobre João

João 10:20

A opinião de uma das partes da discussão era falsa. Sobre isso ele diz: Muitos deles diziam. Diz muitos porque, como lemos em Eclesiastes (1:15): "O número dos insensatos é infinito." Diziam: Tem demônio e é louco, pois é costume dos insensatos sempre dar uma interpretação maligna aos assuntos sobre os quais estão em dúvida; enquanto o oposto deveria ser feito. Assim insultam tudo quanto não conhecem, como lemos na carta de Judas. E assim porque eram incapazes de compreender as palavras de nosso Senhor - pois "a luz resplandece nas trevas, e as trevas não compreenderam a luz" (1:5) - eles blasfemavam, dizendo: Tem demônio e é louco. E tentam afastar outros dele, dizendo: Por que o ouvem? Estes blasfemadores acusam Cristo de duas coisas. Primeiro, que tem demônio. Como se dissesse: Ele não fala pelo Espírito Santo, mas por um espírito perverso. Algo semelhante se encontra em Atos a respeito de Paulo: "Parece ser um pregador de deuses estrangeiros" (17:18). Ora, o fato é que uma pessoa que tem seu próprio demônio familiar está sempre espiritualmente louca, mas nem sempre louca corporalmente. Mas alguns podem ser possuídos por um demônio, e estes estão sempre loucos até corporalmente. Assim foi dito de Cristo: "Está fora de si" (Mc 3:21). Segundo, para mostrar que Cristo tem um demônio deste modo, eles dizem: e é louco. "Teu muito estudo te levou à loucura" (At 26:24). Porém sua blasfêmia não é surpreendente, pois são sensuais e, como lemos em 1 Coríntios (2:14): "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus". — Comentário sobre João

João 10:21

Esta opinião é refutada pelas declarações do outro lado, e isto ocorre de duas maneiras. Primeiro, pela profundidade das palavras de Cristo. Assim, ele diz: Outros, ou seja, aqueles que compreenderam retamente, disseram: Estas não são as palavras de um possuído. Isto era como dizer: É claro pelo que ele está dizendo que não é louco, porque suas palavras são ordenadas e profundas: "Senhor, a quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna" (6:69). E Paulo diz: "Não estou louco, excelentíssimo Festo, mas falo palavras de verdade" (At 26:25). Segundo, esta opinião é refutada pela grandeza do milagre realizado por Cristo. Assim, eles dizem: Pode um demônio abrir os olhos dos cegos? Isto significa: Não era este um dos maiores milagres? Estavam certos em crer que poderia ser realizado apenas pelo poder de Deus: "Se este homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada" (9:33). Deve-se notar que existem certos "milagres" que podem ser realizados pelo poder dos demônios e anjos, e existem outros que de nenhum modo podem ser realizados por seu poder. Aquelas coisas que estão acima da ordem da natureza nenhuma criatura absolutamente pode realizar por seu próprio poder, pois a criatura mesma está sujeita às leis da natureza. Só Deus, que está acima da natureza, pode agir acima da ordem da natureza. Portanto, tudo o que qualquer criatura realiza deve permanecer dentro da ordem da natureza: um anjo, quer bom quer mau, é capaz de fazer, quando lhe é permitido. Assim, usando as sementes que nas coisas naturais estão ordenadas para a geração de certos animais, são capazes de efetuar a geração destes animais, como fizeram os magos do Faraó (Ex 7:11). Novamente, podem produzir mudanças que afetam a natureza de uma coisa; assim, podem curar os enfermos que poderiam ser ajudados pelo poder da natureza. Mas as coisas que absolutamente transcendem a ordem da natureza podem ser realizadas por Deus apenas, ou por anjos bons e homens santos através do poder de Deus, que obtêm através da oração. Tais seriam a concessão de vista aos cegos e a ressurreição dos mortos; pois o poder da natureza não pode estender-se à restauração da vista ou à ressurreição dos mortos. Consequentemente, um demônio não pode abrir os olhos de um cego ou ressuscitar os mortos, porque isto é feito por Deus apenas, e pelos santos através do poder de Deus. — Comentário sobre João

João 10:22

Aqui vemos a disputa que os líderes judeus iniciaram com Cristo. Primeiro, o Evangelista apresenta a pergunta feita pelos judeus; em segundo lugar, a resposta de Cristo (v 25); e em terceiro lugar, o efeito desta resposta (v 31). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, descreve as circunstâncias do interrogatório; em segundo lugar, ele faz a própria pergunta (v. 24). As circunstâncias do interrogatório são descritas com respeito a três coisas: a hora, o local e as pessoas que fazem a pergunta. Ele menciona primeiro a hora específica, dizendo que era a festa da Dedicação em Jerusalém. Para compreender isto temos que saber, como diz Agostinho, que uma “encaenia” era a festa da dedicação de uma igreja. A palavra grega, caenos, é igual à palavra latina para “novo”. Assim, uma encenia é o mesmo que uma renovação; e mesmo na linguagem cotidiana, quando algo é dedicado a algum uso, diz-se que está "encaenado", o que é o mesmo que ser renovado. Assim, a enenia, a festa da Dedicação, era a festa e comemoração da dedicação do templo, pois quando dedicamos recentemente alguma igreja ao culto divino, celebramos a sua reserva para um propósito sagrado; e em memória disso celebramos todos os anos no mesmo dia. Assim, todos os anos os judeus celebravam a encenia, a lembrança da dedicação do templo. Para entender por que existe uma festa de consagração de uma igreja, devemos notar que todas as festas na Igreja são celebradas em memória das bênçãos de Deus: “Relatarei a benignidade do Senhor” (Is 63,7). Novamente no Salmo 117, depois de Davi ter lembrado as muitas bênçãos de Deus, dizendo: “Louvai ao Senhor, porque ele é bom”, ele acrescenta: “Solenizai este dia, com ramos frondosos, até à ponta do altar”. Lembramos que os benefícios de Deus para nós são de três tipos. Às vezes, como se encontram em nossa cabeça, o Senhor Jesus Cristo. Assim celebramos a festa do seu nascimento e da sua ressurreição, e assim por diante. Às vezes recordamo-los como encontrados nos nossos irmãos, isto é, nos santos, que são membros da Igreja. Isto é oportuno, pois como diz o Apóstolo: “Se um membro é honrado, todos juntos se alegram” (1 Cor 12,26). Assim celebramos as festas dos Santos Pedro e Paulo, e dos demais santos. Mas às vezes recordamos os benefícios de Deus encontrados em toda a Igreja: por exemplo, os benefícios dos sacramentos e outras coisas concedidas à Igreja em geral. Ora, um edifício material da igreja é como um sinal da reunião dos fiéis da Igreja, e neste edifício são dispensados ​​todos os sacramentos da graça. Portanto, é em memória destes benefícios que celebramos a festa da dedicação de uma igreja. Com efeito, tal festa é maior do que a festa de qualquer santo, assim como os benefícios conferidos a toda a Igreja, benefícios que celebramos, excedem os benefícios conferidos a algum santo e recordados durante a sua festa. Lembre-se de que o templo de Jerusalém foi consagrado três vezes: primeiro por Salomão (1Rs c 8); em segundo lugar, durante o tempo de Esdras, por Zorobabel e Jesus, o sumo sacerdote (Esdras c 6); em terceiro lugar, pelos Macabeus, pois diz em 1 Macabeus (c 4) que eles subiram a Jerusalém para purificar os lugares santos. Ora, esta festa não foi celebrada em memória da dedicação de Salomão, porque ocorreu no outono, ou seja, no sétimo mês; nem foi em memória da dedicação feita na época de Esdras, pois isso aconteceu durante a primavera, ou seja, no dia nove de março. Mas foi em memória da dedicação feita pelos Macabeus, que aconteceu durante o inverno. E então para mostrar isso ele menciona a época específica, dizendo que era inverno. Há também uma razão mística para mencionar a hora. Como diz Gregório, o evangelista teve o cuidado de mencionar a estação como inverno para indicar o frio do mal no coração dos ouvintes, isto é, dos judeus: «Assim como um poço mantém fria a sua água, assim ela mantém fria a sua maldade» (Jr 6, 7); e lemos sobre este inverno: “O inverno passou, a chuva passou e se foi” (Cântico dos Cânticos 2:11). - Comentário sobre João

João 10:23

Então ele descreve o lugar, e Jesus estava caminhando no templo, no pórtico de Salomão. Ele o descreve primeiro de maneira geral, no templo: "O Senhor está em seu santo templo" (Sl 11:4); segundo, de forma mais detalhada, dizendo, no pórtico de Salomão. Temos que saber que o templo incluía não apenas seu prédio principal, mas também os pórticos circundantes; era nesses pórticos que o povo se levantava e orava, pois apenas os sacerdotes oravam no templo. Era chamado o pórtico de Salomão porque era o lugar onde Salomão estava e orava quando o templo estava sendo dedicado: "Então Salomão se apresentou diante do altar do Senhor na presença de toda a assembleia de Israel" (1 Rs 8:22). Alguém poderia objetar que o templo que Salomão construiu foi destruído, e assim também foi seu pórtico. Eu respondo que o templo foi reconstruído de acordo com as especificações do anterior; e assim como aquele pórtico era chamado o pórtico de Salomão na primeira instância, foi chamado do mesmo modo depois em respeito a ele. — Comentário sobre João

João 10:24

As pessoas que questionam a Cristo são descritas quanto à sua malícia; assim ele diz, então os judeus se reuniram ao seu redor, não aquecidos pela caridade amorosa, mas ardendo com o desejo de prejudicá-lo. Eles vieram atacá-lo, cercando-o e pressionando-o por todos os lados: “Muitos touros me cercam” (Sl 22,12); “Efraim me cercou” (Os 11:12). Então, quando ele diz, e lhe disse, vemos os judeus questionando-o. Primeiro, ele menciona o pretenso motivo de suas perguntas quando diz: Até quando você nos manterá em suspense? Seus modos são lisonjeiros porque querem que pareça que desejam saber a verdade sobre ele. É como se dissessem: Estamos aguardando. Por quanto tempo você nos manterá insatisfeitos? “A esperança adiada faz mal ao coração” (Pv 13:12). Em segundo lugar, eles formulam a sua pergunta: Se tu és o Cristo, dize-nos claramente. Observe sua perversidade; pois, uma vez que eles se ressentem do fato de Cristo se chamar Filho de Deus (5:18), eles não lhe perguntam se ele é o Filho de Deus, mas se você é o Cristo, diga-nos claramente. Eles esperavam com isso obter motivos para acusá-lo perante Pilatos de incitar a sedição e tornar-se rei - o que era contrário a César e ofensivo aos romanos. Foi assim que quando os judeus acusaram Cristo de se fazer Filho de Deus, Pilatos não ficou muito impressionado; mas quando disseram: “Todo aquele que se faz rei se opõe a César” (19:12), ele foi influenciado contra Cristo. É por isso que dizem: Se você é o Cristo, ou rei, ou ungido, diga-nos claramente. Em segundo lugar, observe a maldade deles, porque eles dizem claramente. Era como dizer: Até agora você não ensinou em público, mas mais ou menos em segredo; mas, na realidade, Cristo disse tudo abertamente e esteve presente nos dias de festa, e nada disse em segredo: "Falei abertamente ao mundo... nada disse em segredo" (18,20). - Comentário sobre João

João 10:25

Agora temos a resposta de Cristo, onde ele mostra a incredulidade deles, provando que eles eram enganosos ao dizerem que desejavam conhecer a verdade quando disseram: "Até quando nos manterás em suspense?" Ele mostra isso de duas maneiras. Primeiro, porque não acreditaram nas suas palavras; e sobre isso ele diz: eu te disse, e você não acredita. Como se dissesse: você me diz: “Se você é o Cristo”, o rei, “diga-nos”. Mas eu te disse, isto é, eu te disse a verdade, e você não acredita. “Se eu te contar, vocês não acreditarão” (Lc 22,67). Ele mostra isso de uma segunda maneira, porque eles não acreditam em suas obras. E sobre isto ele diz: as obras que faço em nome de meu Pai, elas dão testemunho de mim. Ele primeiro mostra a incredulidade deles em suas obras; em segundo lugar, a razão da sua incredulidade (v 26). Quanto ao primeiro ele diz, as obras que faço. Isto era como dizer: Você não pode ser persuadido e satisfeito pelas minhas palavras, nem mesmo pelas grandes obras que faço em nome de meu Pai, isto é, para sua glória. Eles dão testemunho de mim, porque só podem ser realizados por Deus. Assim mostram claramente que vim de Deus: “A árvore se conhece pelos seus frutos” (Mt 12,33); “Estas mesmas obras que estou fazendo dão testemunho” (5:36). Mas você não acredita: “Embora ele tivesse feito tantos sinais diante deles, eles não acreditaram nele” (12:37). Por esta razão são indesculpáveis: “Se eu não tivesse feito entre eles obras que nenhum outro fez, não teriam pecado; mas agora viram e odiaram a mim e a meu Pai” (15:24). - Comentário sobre João

João 10:26

A razão de sua descrença é que estão separados das ovelhas de Cristo. Assim ele diz, mas vós não credes, porque não sois minhas ovelhas. Ele faz três coisas a respeito disto. Primeiro, ele diz que estão excluídos da adesão às ovelhas de Cristo; em segundo lugar, ele mostra a dignidade de suas ovelhas (v 27); em terceiro lugar, ele prova que ninguém arrebatará suas ovelhas de suas mãos (v 29). Ele menciona que não estão entre suas ovelhas quando diz, não sois minhas ovelhas, isto é, não sois predestinados a crer, mas previsto para a destruição eterna. Pois o próprio fato de que cremos se deve a Deus: "Porque vos foi dado, por causa de Cristo, não só crer nele, mas também sofrer por ele" (Fl 1:29); "Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2:8). E isto é dado apenas àqueles para quem foi preparado desde a eternidade; assim, apenas aqueles creem nele que foram ordenados a isto por Deus através de uma predestinação eterna: "E creram todos quantos estavam dispostos para a vida eterna" (At 13:48); "Cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus" (At 15:11). Mas deve ser dito a alguém que não é predestinado? Parece que não deveria ser dito: pois como ninguém pode ser salvo a menos que seja predestinado, se for dito a alguém que não é predestinado, seria levado ao desespero. E assim nosso Senhor estava conduzindo os judeus ao desespero quando lhes disse, vós não credes, porque não sois minhas ovelhas. Minha resposta a isto é que neste grupo havia algo comum a todos, isto é, não eram preordenados por Deus a crer naquele tempo; e havia também algo especial, isto é, alguns deles eram preordenados a crer depois. Assim, alguns deles creram depois, pois lemos em Atos (c 2) que três mil deles creram num único dia. Mas alguns não foram preordenados a fazer isto. Portanto, não militava contra a esperança dizer a um grupo, alguns dos quais eram preordenados a crer depois, que não eram suas ovelhas, porque ninguém deles podia aplicar isto definitivamente a si mesmo. Mas militaria contra a esperança se Cristo tivesse dito isto a alguma pessoa definida. — Comentário sobre João

João 10:27

Agora ele revela a dignidade de suas ovelhas quando diz: as minhas ovelhas ouvem a minha voz. Ele aqui menciona quatro coisas: duas delas são o que fazemos em relação a Cristo; as outras duas, que correspondem às primeiras duas, são o que Cristo faz em nós. A primeira coisa que fazemos é obedecer a Cristo. A respeito disto ele diz: as minhas ovelhas, pela predestinação, ouvem a minha voz, crendo e obedecendo aos meus preceitos: "Ah! Se hoje ouvísseis a sua voz! Não endureçais o vosso coração" (Sl 95:7). A segunda coisa, correspondendo a isto, é o que Cristo faz, que é dar seu amor e aprovação. A respeito disto ele diz: e eu as conheço, isto é, as amo e aprovo: "O Senhor conhece os que lhe pertencem" (2 Tm 2:19). Como se fosse dizer: O próprio fato de que me ouvem se deve ao fato de que as conheço por uma eleição eterna. Mas se uma pessoa não pode crer a menos que Deus o dê, parece que a descrença não deveria ser imputada a ninguém. Respondo que é imputada a eles porque são a causa pela qual não lhes é dada. Assim, não posso ver a luz a menos que seja iluminado pelo sol. Contudo, se eu fechasse os olhos, não veria a luz; mas isto não se deve ao sol mas a mim, pois ao fechar os olhos sou a causa de não ser iluminado. Agora o pecado, por exemplo, o pecado original, e em algumas pessoas o pecado atual, é a causa pela qual não somos iluminados por Deus pela fé. Esta causa está em todos. Assim, todos os que são deixados por Deus são deixados pela razão do justo julgamento de Deus, e aqueles que são escolhidos são levantados pela misericórdia de Deus. A terceira coisa, que é o que fazemos, diz respeito à nossa imitação de Cristo. Assim ele diz: e elas me seguem: "Os meus pés seguiram firmemente as suas pegadas" (Jó 23:11); "Cristo também padeceu por vós, deixando-vos um exemplo, para que sigais as suas pegadas" (1 Pd 2:21). — Comentário sobre João

João 10:28

A quarta parte correspondente, que é o que Cristo faz, é a concessão de uma recompensa. A respeito disso ele diz, e eu lhes dou a vida eterna. Isto é como dizer: Eles me seguem trilhando o caminho da gentileza e da inocência nesta vida, e verei que depois eles me seguirão entrando nas alegrias da vida eterna. Nosso Senhor mostra de três maneiras que esta recompensa nunca terá fim. Algo pode terminar de três maneiras. Em primeiro lugar, pela sua própria natureza, por exemplo, se for corruptível. Mas esta recompensa é incorruptível por sua própria natureza. Assim, Ele diz: Eu lhes dou a vida eterna, que é o gozo incorruptível e eterno de Deus: “A vida eterna é esta: que te conheçam o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (17:3). Como diz Agostinho, este é o pasto de que ele falou antes (v 9). Na verdade, a vida eterna é chamada de bom pasto porque é inteiramente verdejante e nada murcha. Em segundo lugar, uma coisa pode acabar porque quem a recebe termina ou não a guarda bem. Mas isto não acontecerá com essa recompensa; assim ele diz, e elas nunca perecerão, isto é, as ovelhas nunca perecerão. Isto entra em conflito com Orígenes, pois ele disse que os santos na glória são capazes de pecar. No entanto, nosso Senhor diz que eles nunca perecerão, porque serão preservados para sempre: “Ao vencedor, eu o farei coluna no templo do meu Deus; dele nunca sairá” (Apocalipse 3:12). Em terceiro lugar, uma coisa pode acabar sendo arrebatada à força: pois talvez Adão não tivesse sido expulso se o Enganador não estivesse lá. Mas isso não acontecerá na vida eterna, e assim diz, e ninguém as arrebatará, isto é, as ovelhas, da minha mão, isto é, da minha proteção e lealdade: “As almas dos justos estão nas mãos de Deus” (Sb 3,1). Como diz Agostinho: “Ali o lobo não arrebata, nem o ladrão rouba, nem o ladrão mata”. - Comentário sobre João

João 10:29

Ele agora prova o que disse acima sobre a dignidade de suas ovelhas, a saber, que ninguém pode arrancá-las de sua mão. Sua razão é esta: Ninguém pode arrancar o que está na mão de meu Pai; mas a mão do Pai e a minha são a mesma; portanto, ninguém pode arrancar o que está em minha mão. Sobre isto ele faz três coisas: primeiro, dá a premissa menor mostrando que o Pai lhe comunicou a divindade, dizendo: o que meu Pai me deu, por uma geração eterna, é maior que tudo. "Pois, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter a vida em si mesmo" (5:26). É maior que qualquer poder: "Ele lhe deu autoridade para exercer juízo, porque é o Filho do homem" (5:27); é maior que qualquer reverência e honra: "Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus toda joelho se dobre" (Fl 2:9). Portanto, o que meu Pai me deu, isto é, que sou sua Palavra, seu Filho unigênito, e o resplendor de sua luz, é maior que tudo. Segundamente, ele menciona a grandeza do poder do Pai, que diz respeito à premissa maior, quando diz: e ninguém pode arrancar, tomar à força ou pilhar secretamente, da mão de meu Pai, do poder de meu Pai, ou de mim, que sou o poder do Pai -- embora como Santo Agostinho diz, seja melhor dizer "do poder do Pai" do que "de mim". Ora, ninguém pode arrancar da mão de meu Pai, porque ele é o Onipotente que não está sujeito à violência, e é todo-sábio de quem nada está oculto: "Ele é sábio de coração e grande em força" (Jó 9:4). — Comentário sobre João

João 10:30

Terceiro, ele afirma sua unidade com o Pai, e desta a conclusão segue. Assim ele diz, Eu e o Pai somos um. Como se dissesse: ninguém os arrancará de minha mão, porque eu e o Pai somos um, por uma unidade de essência, pois o Pai e o Filho são o mesmo em natureza. Esta declaração rejeita dois erros: o de Ário, que distinguia a essência do Pai daquela do Filho, e o de Sabélio, que não distinguia a pessoa do Pai da pessoa do Filho. Escapamos de ambas Caríbdis e Cila, pois pelo fato de que Cristo diz, um, ele nos salva de Ário, porque se um, então não são diferentes em natureza. E pelo fato de que ele diz, somos, ele nos salva de Sabélio, pois se somos, então o Pai e o Filho não são a mesma pessoa. Todavia os Arianos, enganados por sua perversidade, tentam negar isto, e dizem que uma criatura pode de certa forma ser um com Deus, e neste sentido o Filho pode ser um com o Pai. A falsidade disto pode ser demonstrada de três formas. Primeiro, a partir de nossa própria maneira de falar. Pois é claro que "um" é afirmado como "ser"; assim, assim como algo não é dito ser um ser absolutamente exceto de acordo com sua substância, assim não é dito ser um exceto de acordo com sua substância ou natureza. Agora algo é afirmado absolutamente quando é afirmado sem qualificação adicionada. Portanto, porque Eu e o Pai somos um, é afirmado absolutamente, sem qualificações adicionadas, é claro que são um de acordo com substância e natureza. Mas nunca encontramos que Deus e uma criatura são um sem alguma qualificação adicionada, como em 1 Coríntios (6:17): "Quem se une ao Senhor é um espírito com ele." Portanto, é claro que o Filho de Deus não é um com o Pai como uma criatura pode ser. Segundo, podemos ver isto a partir de sua declaração anterior, o que meu Pai me deu é maior que tudo. Ele tira a conclusão disto: Eu e o Pai somos um. Isto é como dizer: Somos um na medida em que o Pai me deu aquilo que é maior que tudo. Terceiro, é claro de sua intenção. Pois nosso Senhor prova que ninguém arrancará as ovelhas de sua mão precisamente porque ninguém pode arrancar da mão de seu Pai. Mas isto não se seguiria se seu poder fosse menor que o poder do Pai. Portanto, o Pai e o Filho são um em natureza, honra e poder. — Comentário sobre João

João 10:31

Vimos o ensinamento de Cristo; e agora vemos o efeito que este ensinamento tem nos judeus. Primeiro, Jesus repreende sua ferocidade; segundo, ele se defende contra a acusação de blasfêmia; e terceiro, ele escapa de sua violência (v 39). Concernente ao primeiro, duas coisas são feitas. Primeiro, vemos a violência dos judeus os incitando a apedrejar Cristo. O Evangelista diz, Os judeus pegaram em pedras novamente para o apedrejar. Eles eram de coração duro e incapazes de entender sua mensagem profunda; e assim, sendo como pedras, recorrem a pedras: "Quando falei com eles, eles lutaram contra mim sem causa" (Sl 119:7). — Comentário sobre João

João 10:32

Segundo, vemos nosso Senhor repreender sua violência, dizendo, Mostrei-vos muitas boas obras. Primeiro, ele os lembra dos benefícios que lhes deu; segundo, repreende sua violência. Ele recorda os benefícios que concedeu em curar os enfermos, em ensiná-los e em realizar seus milagres. Portanto respondeu-lhes, Mostrei-vos muitas boas obras, por curação, ensinamento e milagres - "Ele fez todas as coisas bem" (Mc 7:37) - do Pai, cuja glória busquei em todas estas coisas - "Mas não busco minha própria glória" (8:50). E reprende sua violência quando diz, por qual destas me apedrejais? Isto era como dizer: Você deveria honrar quem lhe faz bem, não apedrejá-lo: "É a iniquidade a recompensa do bem?" (Jr 18:20). — Comentário sobre João

João 10:33

Agora nosso Senhor se defende da acusação de blasfêmia. Primeiro, vemos-no acusado de blasfêmia pelos judeus; e em segundo lugar, Cristo prova a sua inocência (v 34). Com respeito ao primeiro, diz o Evangelista: Os judeus responderam-lhe: Não te apedrejamos por nenhuma boa obra, mas por blasfêmia. Há cinco coisas a serem consideradas aqui. Primeiro, qual parece ser o motivo do apedrejamento, a saber, a sua blasfêmia. Pois Levítico ordena que os blasfemadores sejam apedrejados: “Tirai fora do acampamento aquele que blasfemou; e todos os que o ouviram imponham as mãos sobre sua cabeça, e a congregação o apedreje” (Lv 24:14). Mencionando esse motivo, eles dizem: Não te apedrejamos por nenhuma boa obra, mas por blasfêmia. Em segundo lugar, especificam a sua blasfêmia. É blasfêmia não apenas atribuir a Deus o que não lhe é apropriado, mas também atribuir a outro o que pertence somente a Deus. Portanto, é blasfêmia não apenas dizer que Deus é um corpo, mas também dizer que uma criatura pode criar: “É blasfêmia! Quem pode perdoar pecados senão somente Deus?” (Marcos 2:7). Assim, os judeus diziam que nosso Senhor era um blasfemador, não no primeiro sentido, mas por usurpar para si o que é próprio de Deus: porque você, sendo homem, faz-se Deus. A terceira coisa a ser considerada é que os judeus entenderam as palavras de Cristo, eu e o Pai somos um, melhor do que os arianos. Assim eles ficaram indignados porque entenderam que eu e o Pai somos um só poderia ser dito se o Pai e o Filho fossem iguais. Isso é o que dizem, você se faz Deus, afirmando com suas palavras que você é Deus, o que não é verdade, você, sendo homem. O quarto ponto a considerar é que a distância entre Deus e o homem é tão grande que era inacreditável para eles que alguém com natureza humana pudesse ser Deus. Então eles dizem significativamente, porque você, sendo homem, faz de si mesmo Deus. No entanto, esta incredulidade poderia ter sido dissipada pelo que é lido no Salmo: "Que é o homem para que dele te lembres? Ou o filho do homem para que o visites?" (Sl 8:5); e em Habacuque (1:5): “Pois estou fazendo uma obra em seus dias que você não acreditaria se fosse contada”, isto é, a obra da encarnação, que ultrapassa toda mente. A quinta coisa a considerar é que eles não concordam consigo mesmos: pois por um lado, dizem que Cristo faz boas obras, dizendo: nós apedrejamos vocês por nenhuma boa obra; and on the other hand, they accuse him of blasphemy, usurping for himself the honor of God. Agora, estes entram em conflito entre si, pois ele não poderia realizar milagres de Deus se blasfemasse contra Deus, porque "Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos" (Mateus 7:18). E isso se aplica especialmente a Cristo. - Comentário sobre João

João 10:34

Aqui nosso Senhor se defende contra a acusação de blasfêmia. Primeiro, ele faz sua defesa; secondamente, ele lhes mostra a verdade (v 37). Ele se defende por autoridade divina, e assim primeiro menciona a autoridade da Escritura; secondamente, explica seu significado; e terceiramente, tira sua conclusão. O Evangelista diz: Jesus lhes respondeu: Não está escrito em vossa lei (no Salmo 82:6): Eu disse, vós sois deuses? Aqui devemos notar que "lei" é entendida de três maneiras na Escritura. Às vezes é tomada em sentido geral para toda a Antiga Testamento, contendo os cinco livros de Moisés, os profetas e as hagiografias. Este é o modo como "em vossa lei" é entendido aqui, significando na Antiga Testamento. Pois esta citação é dos salmos, que são referidos como a lei porque toda a Antiga Testamento é considerada como tendo a autoridade de lei. Às vezes "lei" é entendida como distinta dos profetas, salmos e hagiografias; este é o modo como Lucas a usa em "Tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés e nos profetas e nos salmos deve ser cumprido" (Lc 24:44). Novamente, em outras ocasiões, é distinguida dos profetas. Neste sentido, os salmos e os outros livros da Antiga Testamento, outros que o Pentateuco, estão incluídos dentro dos profetas, na base de que a Antiga Testamento foi produzida por um espírito profético. Este é o modo como é entendida em Mateus: "Nestes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 23:40). A palavra "Deus" também é usada em três sentidos. Às vezes significa a própria natureza divina, e então é usada apenas no singular: "Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus é um único Senhor" (Dt 6:4). Em outras ocasiões é tomada em sentido denominativo: deste modo ídolos são chamados deuses: "Todos os deuses dos povos são ídolos" (Sl 96:5). E às vezes alguém é chamado de deus por causa de uma certa participação na divindade, ou em algum poder sublime divinamente infundido. Deste modo, até juízes são chamados de deuses na Escritura: "Se o ladrão não for descoberto, o dono da casa será trazido aos deuses", isto é, aos juízes (Ex 22:8); "Não falareis mal dos deuses", isto é, dos governantes (Ex 22:28). Este é o modo como a palavra "deus" é tomada aqui, quando ele diz: Eu disse, vós sois deuses, isto é, vós compartilhais em algum poder divino superior ao humano. — Comentário sobre João

João 10:35

Então, quando ele diz: Se ele chamou de deuses aqueles a quem veio a palavra de Deus, ele mostra o significado da autoridade que citou. Isto era como dizer: Ele os chamou de deuses porque eles participaram de algo divino na medida em que participaram da palavra de Deus, que lhes foi falada. Pois devido à palavra de Deus a pessoa obtém alguma participação no poder e pureza divinos: “Você já está purificado pela palavra que eu lhe falei” (15:3); e em Êxodo (c 34) lemos que o rosto de Moisés brilhou quando ouviu as palavras do Senhor. Do que foi dito acima, pode-se argumentar desta forma: É claro que uma pessoa, ao participar da palavra de Deus, torna-se deus pela participação. Mas uma coisa não se torna isto ou aquilo por participação, a menos que participe no que é isto ou aquilo pela sua essência: por exemplo, uma coisa não se torna fogo pela participação, a menos que participe daquilo que é fogo pela sua essência. Portanto, ninguém se torna deus pela participação, a menos que participe daquilo que é Deus por essência. Portanto, o Verbo de Deus, que é o Filho, pela participação em quem nos tornamos deuses, é Deus por essência. Mas nosso Senhor, em vez de argumentar tão profundamente contra os judeus, preferiu argumentar de uma forma mais humana. Ele diz, e a Escritura não pode ser anulada, a fim de mostrar a verdade irrefutável da Escritura: “Senhor, a tua palavra dura para sempre” (Sl 118:89). - Comentário sobre João

João 10:36

Então, quando diz: Como podeis dizer que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo, ele tira sua conclusão. Se, com Hilário, nos referimos isto a Cristo enquanto tem natureza humana, o significado é este: Algumas pessoas são chamadas deuses apenas porque participam da palavra de Deus. Como então podeis dizer que blasfema, ou seja, como podeis considerar blasfêmia, se aquele homem que está unido em pessoa à Palavra de Deus é chamado Deus? Por isto ele diz: aquele que o Pai santificou. Pois embora Deus santifique todos aqueles que são santificados - "Santifica-os na verdade" (17:17) - ele santificou Cristo de forma especial. Ele santifica outros para serem filhos adotivos - "Recebestes o espírito de adoção" (Rm 8:15) - mas santificou Cristo para ser o Filho de Deus por natureza, unido em pessoa à Palavra de Deus. Estas palavras: aquele que o Pai santificou, mostram isto de duas formas. Pois se Deus santifica como Pai, é claro que santifica Cristo como seu Filho: "Foi predestinado a ser o Filho de Deus pelo espírito de santidade" (Rm 1:4). Também podemos ver isto ao dizer: e enviou ao mundo. Pois não é apropriado uma coisa ser enviada a algum lugar a menos que tivesse existido antes de ser enviada. Portanto, aquele que o Pai enviou ao mundo de forma visível, é o Filho de Deus, que existia antes de ser visível: pois como vimos acima, "Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele" (1:10); e "Deus enviou o seu Filho ao mundo" (3:17). Como podeis dizer: Blasfemas, porque eu disse: Sou o Filho de Deus? Isto era como dizer: Eu, que estou unido em pessoa à Palavra, tenho muito mais razão para dizer isto do que aqueles aos quais a palavra de Deus veio. Mas como os judeus perceberam que ele estava reivindicando ser o Filho de Deus? Nosso Senhor não disse isto expressamente. Respondo que embora nosso Senhor não tenha dito isto expressamente, todavia pelo que disse - Eu e o Pai somos um e O que meu Pai me deu é maior que todas as coisas - compreenderam que recebia sua natureza do Pai e era um em natureza com ele. Mas receber a mesma natureza de outro, e sê-lo, é ser filho. Mas se, com Agostinho, nos referimos àquele que o Pai santificou a Cristo como Deus, então o significado é este: aquele que o Pai santificou é aquele que ele gerou santo, ou santificou, desde a eternidade. As outras coisas que se seguem devem ser explicadas da mesma forma que Hilário faz. Todavia, a melhor explicação é referir tudo a Cristo como homem. — Comentário sobre João

João 10:37

Depois, quando ele diz: 'Se não faço as obras de meu Pai, então não me creiás', ele prova a verdade do antedito. É como dizer: Embora na vossa opinião eu seja apenas humano, contudo não estou blasfemando quando digo que sou verdadeiramente Deus, porque verdadeiramente sou. Ele faz duas coisas a respeito disto: primeiro, ele apresenta o argumento de suas obras; em segundo lugar, ele tira sua conclusão (v 38b). Em primeiro lugar, ele diz que na ausência de suas obras teriam uma desculpa. Ele diz: 'Se não faço as obras de meu Pai, isto é, as mesmas que ele faz, e com o mesmo poder e potência, então não me creiás'. 'Tudo quanto aquele faz, o Filho também faz igualmente' (5:19). — Comentário sobre João

João 10:38

Segundo, ele diz que são condenados por seus próprios atos: mas se os faço, as mesmas obras que o Pai faz, então, ainda que não creiais em mim, que apareço como filho do homem, crede nas obras, isto é, essas obras mostram que eu sou o Filho de Deus: "Se eu não tivesse feito entre eles as obras que nenhum outro fez, não teriam pecado" (15:24). Ora ele tira sua conclusão, dizendo, para que saibais e creiais que o Pai está em mim e eu estou no Pai. Pois a indicação mais clara da natureza de uma coisa é tirada de suas obras. Portanto, do fato de que ele faz as obras de Deus pode ser claramente conhecido e crido que Cristo é Deus. Conseqüentemente ele diz: vou argumentar por minhas obras mesmas, para que saibais e creiais no que não podeis ver com vossos olhos, isto é, que o Pai está em mim e eu estou no Pai: "Eu estou no Pai e o Pai está em mim" (14:10), por uma unidade de essência. O Pai está em mim e eu estou no Pai e "Eu e o Pai somos um," têm o mesmo significado. Hilário explica bem isto dizendo que há esta diferença entre Deus e o homem: o homem sendo um composto, não é sua própria natureza; mas Deus, sendo totalmente simples, é sua própria existência e sua própria natureza. Portanto, em quem quer que a natureza de Deus esteja, aí está Deus. E assim, visto que o Pai é Deus e o Filho é Deus, onde quer que a natureza do Pai seja, aí está o Pai, e onde quer que a natureza do Filho seja, aí está o Filho. Portanto, visto que a natureza do Pai está no Filho, e vice-versa, o Pai está no Filho, e vice-versa. Mas conforme Santo Agostinho observa, embora Deus esteja no homem e o homem esteja em Deus - "Aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele" (1 Jo 4:16) - isto não significa que sejam um em essência. Antes, o homem está em Deus, isto é, sob o cuidado e proteção divinos, e Deus está no homem, pela semelhança de sua graça. Todavia, o Filho unigênito está no Pai e o Pai está nele como iguais. — Comentário sobre João

João 10:39

Agora nosso Senhor se afasta da obstinação dos Judeus. Primeiro, o Evangelista mostra que eram obstinados; segundo, vemos que Cristo se afasta disto; terceiro, vemos qual foi o efeito disto. O Evangelista mostra sua inflexibilidade pelo fato de que após tantas confirmações da verdade, após a evidência de tantos milagres e maravilhas, ainda assim persistem em seu mal. Assim novamente tentaram prendê-lo, capturá-lo, não para crer e compreender, mas em sua raiva para lhe fazer mal; ficaram ainda mais enraivecidos porque havia expresso mais claramente sua igualdade com o Pai: "Apegam-se à mentira, recusam-se a voltar" (Jr 8:5). Mas nosso Senhor se afasta de sua raiva, e assim o Evangelista diz, mas ele escapou de suas mãos. Aqui vemos, primeiro, que ele os deixou escapando de suas mãos. Fez isto por duas razões. Para mostrar que não podia ser retido a menos que quisesse: "Passando pelo meio deles, retirou-se" (Lc 4:30); "Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de minha própria vontade" (10:18). Segundo, para nos dar o exemplo de nos afastarmos da perseguição quando isto pode ser feito sem prejudicar a fé: "Não te oponhas contra quem pode prejudicar-te" (Sir 8:14).

João 10:40

Vemos, em segundo lugar, para onde ele foi quando o evangelista diz que ele atravessou novamente o Jordão para o lugar onde João batizou pela primeira vez. A razão mística para isto é que em algum momento, através dos apóstolos, Jesus iria converter os gentios. A razão literal é dupla. Primeiro, este lugar ficava perto de Jerusalém, e como a sua paixão estava próxima, ele não queria estar muito longe. Em segundo lugar, quis recordar o testemunho que João ali deu, quando disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1,29), bem como o testemunho do Pai a seu Filho, Cristo, no momento do seu batismo. - Comentário sobre João

João 10:41

O efeito deste afastamento foi que muitos foram convertidos à fé. Três pontos são feitos sobre esta conversão. Primeiro, muitos imitaram suas obras; assim ele diz: e muitos vieram a ele, a saber, imitando suas obras: "Vinde a mim, todos os que vos cansais e estais sobrecarregados, e eu vos farei descansar" (Mt 11:28). Segundo, muitos o professaram em palavra, e disseram: João não fez nenhum sinal. Por isto professam a superioridade de Cristo sobre João. A razão disto era que João foi enviado como testemunha de Cristo; assim deveria mostrar que era digno de ser acreditado e seu testemunho seria mostrado ser verdadeiro. Ora, isto é adequadamente feito por santidade de vida. Por outro lado, Cristo veio como Deus; conseqüentemente, era apropriado que ele mostrasse os sinais do poder divino. E assim João se destacou pela santidade de sua vida; Cristo, porém, além disto, realizou obras que manifestavam seu poder divino. Isto estava de acordo com a prática dos governantes da antiguidade de que quando na presença de um poder superior, um poder menor não exibia as insígnias de seu poder. Assim, na presença do Ditador, os Cônsules derrubavam suas insígnias. Assim não era apropriado que João, que possuía menor poder, porque era um precursor e testemunha, empregasse as insígnias do poder divino; só Cristo deveria ter feito isto. Eles professam a verdade do testemunho de João a Cristo, dizendo: mas tudo o que João disse deste homem, Cristo, era verdadeiro. Eles estavam dizendo: Embora João não tenha feito nenhum sinal, ele não obstante disse tudo com verdade sobre Cristo. — Comentário sobre João

João 10:42

Em terceiro lugar, ele revela a fé em seus corações, dizendo, e muitos acreditaram nele ali. Como observa Agostinho, eles agarraram o Cristo remanescente, a quem os judeus queriam capturar minguante, porque através da lâmpada eles haviam chegado ao dia. Pois João era aquela lâmpada e dava testemunho do dia. - Comentário sobre João